O Culto Público Reformado
 
                                            por: Paulo Costa
                                            Agosto 2017
 
O culto é uma reunião solene com o propósito de glorificar a Deus de forma reverente e com temor.                                                                                                         
O culto não é veneração, festa prazerosa, invocação e tampouco encontro para solicitação.
O culto é um serviço prestado ao Senhor pela comunidade dos eleitos segundo prescrições, com zelo e gratidão, alegria e temor, profissão e adoração, contrição e esperança.
O culto é uma resposta ao sacrifício de Cristo, rememorado na Santa Ceia e no anúncio das Escrituras Sagradas.
O culto bíblico que o Senhor instituiu tem relação direta com o decálogo, devendo ser prestado somente a Deus, não desviando a adoração, não tomando o nome dele em vão, e consagrando um dia para cultuá-lo com sobriedade.
Para que seja caracterizado como reformado alguns princípios devem estar presentes no culto como a biblicidade, pactualidade, evangelicidade, historicidade, reverência e servicilidade.
Os elementos do culto público reformado são a leitura e pregação da palavra de Deus, as orações, cantar salmos, hinos e cânticos espirituais ou sagrados, celebração da Ceia do Senhor, ministração do Batismo, juramentos religiosos, votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais e ofertas. 
A vida, a conduta e a atitude do povo e de seus líderes são igualmente importantes para o culto que Deus aprova.
O culto deve ser público, mas também realizado em secreto, em família e em grupos menores.
Devemos adorar a Deus em espírito e em verdade com sinceridade de coração, humildade, espírito quebrantado, com santa alegria e gozo no Senhor, reconhecendo que o Deus Trino é o centro do culto.
                                                                                
                                                                                                                                                                                                          

 

O CONCEITO DE INTELIGÊNCIA HUMILHADA

 

Por Reginaldo Cresencio

Julho de 2017

 

 

Dois grandes nomes da história da igreja cristã, cada um no seu tempo, porém, indeléveis no que se refere na construção do que hoje a cristandade reconhece como ortodoxo.

Agostinho de Hipona em sua obra Confissões, no capítulo X, abre o parágrafo com uma paráfrase de 1 Coríntios 13.12 que deixa bem claro qual era o pensamento de servo de Deus:

“Que eu te conheça, ó conhecedor de mim, que eu te conheça, tal como sou conhecido por ti.”

 

E paralelamente João Calvino expressa em sua obra As Institutas no capítulo 1:

 

“A soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria verdadeira e certa, abrange estas duas partes o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmos.”

 

Conhecimento, sabedoria, são palavras fortes e consideradas como virtudes para aqueles que as possuem, porém, não é difícil encontrarmos pessoas que são capazes de desvirtuarem tais conceitos através de ações podem até confirmarem a primeira mas com certeza negam a segunda.

Scientia potentia est é uma expressão em latim que significa conhecimento é poder. É muitas vezes atribuída a Francis Bacon; no entanto não é conhecida nenhuma ocorrência precisa desta frase nos escritos em latim ou em inglês de Francis Bacon.[1]

Um provérbio, praticamente com a mesma constituição, é encontrado em hebreu, no Livro dos Provérbios (24,5): גֶּבֶר-חָכָם בַּעוֹז; וְאִישׁ-דַּעַת, מְאַמֶּץ-כֹּחַ, traduzível como O homem sábio é forte, e quem tem conhecimento aumenta a força.[2]

A frase implica que com aquisição de conhecimento ou através de educação, o nosso potencial ou habilidades na vida, aumentarão. Ter e partilhar conhecimento é também reconhecido como base para aumentar a reputação de alguém e de influenciar os outros, logo, ter poder. A frase pode também ser usada no contexto da justificação para a relutância para partilhar informação, quando a pessoa julga que ao reter conhecimento lhe pode dar alguma forma de vantagem.

Nestes servos do Senhor encontramos um imenso conteúdo teológico com sua poemênica que atinge ao intelecto e também o coração de seus leitores até os dias atuais.

Em ambas as obras a busca do auto-conhecimento nos é apresentada e apesar de terem sido escritos a centenas de anos o dilema no coração do homem cristão permanece:

Quem sou?

Apesar de muitos rapidamente se prestarem a responder a essa pergunta ontológica, poucos são capazes de acertar o seu significado, sendo os dias atuais um emaranhado de conceitos e pré-conceitos mal elaborados e mais ainda definidos ao ponto de concordarmos com  Zygmunt Bauman em seu livro Modernidade Líquida que diz:

 

“Ele afirma que vivemos num tempo marcado pela flexibildade, na qual, provoca uma certa fragilidade no que tange nossas relações sobre as coisas ou pessoas.
Essa sociedade líquida é comparada com a água, em razão deste elemento natural ter a potencialidade de alterar sua forma conforme seu recipiente. Nós estamos tendo essa característica instável, nos moldando conforme o andar da carruagem. Perdeu-se o aspecto durável e sólido das coisas, tudo é passível de mudança.”
[3]

 

O “conhece-te a ti mesmo”, que Sócrates teria tomado a inscrição da entrada do templo de Delfos como inspiração para construir sua filosofia: Conhece-te a ti mesmo é necessária ao homem, porque é o caminho que permite ter acesso à verdade. Mas que tipo de verdade?

Agostinho e Calvino buscaram conhecer a si mesmos para que se descobrindo miseráveis pudessem contemplar e ansiar a majestade de Deus, e então conhece-Lo, obviamente não como Ele nos conhece, mas de maneira mais profunda que a maioria de seus contemporâneos e até os dias de hoje entre seus irmãos em Cristo que jamais tiveram capacidade e a profundidade de chegar a tal conhecimento.

Diferente dos gurus modernos que oferecem livros de auto ajuda com “dez passos para o sucesso” “ Sete maneiras de enriquecer” ou “doze jeitos de ser feliz” os autores cristãos deixaram claro que para o homem o conhecer ao homem depende de conhecer a Deus pois o homem esta repleto de qualidades indignas e cheio de insensatez e sem a ajuda do Criador não é capaz de se perceber.

 

“Por outro lado, é notório que o homem jamais pode ter claro conhecimento de si mesmo, se primeiramente não contemplar a face do Senhor, e então descer para examinar a si mesmo. Porque esta arrogância esta arraigada em todo nós.”[4] (Calvino)

 

“Mas tu, porém, médico do meu íntimo, faz-me ver claramente com que fruto é que eu faço isto. Na verdade, as confissões dos meus males passados, que perdoaste e apagaste para me tornares feliz em ti...” (Agostinho)[5]

 

E essa busca por si mesmo através do conhecimento de Deus é que permite e fornece subsídios para o homem perceber que diante da justiça perfeita do Senhor, sua sabedoria e seu poder, nós homens somos apenas iníquos e fracos miseráveis, totalmente dependentes da misericórdia e bondade de Deus.

João Calvino relata a experiência de temor e tremor dos santos na presença de Deus quando Ele se manifestava aos seus servos e sua suposta firmeza na ausência da glória do Senhor.

E até mesmo os religiosos mais tolos e supersticiosos não negam a ideia de um Deus todo poderoso e conhecedor de todas as coisas, mas isso não os impede de cometerem a prática da idolatria, seria um desprezo para com Deus ou uma espécie de esconderijo para fugir da responsabilidade que possui diante do Senhor?

Em muitos casos a inteligência e o muito conhecimento são ídolos que são adorados e elevados ao status de “deus” e que transformam essas pessoas em arrogantes, presunçosos e soberbos, e esse tipo de situação acontece não apenas com falsos cristãos ou perseguidores do cristianismo, infelizmente muitos homens e mulheres de Deus correm e não poucos sucumbem ao risco de se “acharem” mais importantes do que realmente são, necessários quando o único necessário é Deus, e por isso maltratar e humilhar os pequeninos servos do Senhor, desprezando a igreja de Cristo e assim o Cristo.

Precisamos urgentemente buscar conhecer a nós mesmos e a Deus para que sejamos humildes e gratos com a porção que o Senhor tem dado a cada um, e colocar o conhecimento de forma sábia, á favor do Reino de Deus e não como plataforma de autopromoção.

E se Francis Bacon algum dia chegou a conclusão de que conhecimento é poder, nós os cristãos podemos alegar com toda certeza e evidência que o conhecimento de Deus é poder não para dominar o próximo, mas para se autodominar e viver uma vida feliz e plena.

 

“Visto que Deus quis que o fim principal da vida realmente feliz estivesse situado no conhecimento do seu nome, para que não pareça que é seu desejo vedar a alguns o ingresso na felicidade, ele se manifesta claramente a todos.”[6]

                                                       

 

 

 

 

 



[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Scientia_potentia_est

[2] Bíblia - NVI

[3] http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2420135

[4] João Calvino, As Institutas,  cap. 1, pág. 56

[5] Agostinho de Hipona  Confissões, no capítulo X, parágrafo 4

[6] João Calvino, As Institutas,  cap. 1, pág. 62