10 anos em 10 dias
O relato de um missionário preso no Oriente Médio
Por: Pr. Reginaldo Cresencio
08 de setembro de 2026, São Carlos - SP.
Quando comecei 10 Anos em 10 Dias, já sabia que encontraria a história de um missionário preso no Oriente Médio. Está na capa. O que eu não esperava era terminar o livro pensando tanto sobre a minha própria vida cristã.
Talvez porque seja confortável admirar histórias de coragem quando elas pertencem a outras pessoas. Gostamos de ler biografias missionárias, conhecer relatos da igreja perseguida e ouvir testemunhos de homens e mulheres que permaneceram firmes em situações extremas. Mas, em algum momento desta leitura, a distância entre o missionário e o leitor diminuiu, e a pergunta deixou de ser o que ele faria diante da perseguição. Comecei a pensar no que eu faria.
Isso tornou a leitura bastante pessoal para mim.
Por razões de segurança, o autor não revela sua verdadeira identidade. A Editora Fiel o apresenta pelo pseudônimo Estêvão Júnior, preservando também informações que poderiam colocar em risco sua família e cristãos que continuam vivendo em contextos sensíveis. Sabemos o suficiente para compreender a história: trata-se de um pastor e missionário brasileiro que viveu por mais de uma década no mundo árabe-muçulmano, até que sua atividade missionária chamou a atenção das autoridades e ele acabou preso.
É daí que vem o título.
Durante dez dias de prisão, dez anos de ministério voltam à memória. A narrativa acompanha essas lembranças e nos permite conhecer não apenas os acontecimentos que culminaram em sua detenção, mas o caminho que o levou até ali.
E gostei bastante dessa escolha narrativa, porque a prisão poderia facilmente ter engolido todo o restante da história. Não acontece. Aos poucos percebemos que aqueles dez dias só podem ser compreendidos à luz dos dez anos anteriores.
Uma das coisas que o livro faz muito bem é desmontar certa visão romântica que às vezes temos da vida missionária.
Existe coragem, naturalmente. Mas também existe dificuldade para aprender outra língua, adaptação cultural, saudade, frustrações e aquela longa espera que acompanha qualquer ministério que depende da construção de relacionamentos.
A evangelização naquele contexto acontece devagar.
É preciso entrar na vida das pessoas, aprender a ouvi-las e compreender uma cultura profundamente diferente. Amizades precisam ser construídas antes que algumas conversas sejam possíveis. E quando alguém começa a demonstrar interesse pelo Evangelho, isso pode envolver consequências familiares e sociais que nós, vivendo no Brasil, dificilmente conseguimos dimensionar.
Esse aspecto do livro me chamou bastante a atenção.
Pastores gostam de resultados. Igrejas também. Queremos saber quantas pessoas foram alcançadas, quantas igrejas foram plantadas e quantos convertidos foram batizados. Nada disso é irrelevante, evidentemente, mas o livro nos lembra de que o Reino de Deus muitas vezes cresce de maneira muito menos espetacular.
Às vezes começa com uma conversa.
Depois outra.
Uma Bíblia aberta.
Uma pergunta que finalmente pôde ser feita.
E muita paciência.
Talvez por estar há tantos anos no ministério pastoral, reconheci algo familiar nessa parte da história. O contexto é completamente diferente do meu, mas o princípio não é. Pastorear também me ensinou que algumas das obras mais profundas de Deus na vida de uma pessoa levam anos. Nem tudo pode ser apressado, e nem tudo pode ser medido.
O missionário aprende isso no campo.
E nós também precisamos aprender.
Sabemos que a prisão chegará. Ainda assim, quando ela finalmente acontece, o livro muda.
Aquilo que vinha sendo construído ao longo dos anos passa a ser colocado à prova numa sala de interrogatório.
Há uma pergunta especialmente difícil: como responder às autoridades sem comprometer pessoas que confiaram em você?
Nesse ponto, gostei muito da honestidade do relato. O autor não tenta construir para si uma imagem heroica. Ele sente medo, pensa na família, calcula consequências e procura discernir o que deve dizer.
Isso tornou o testemunho muito mais verdadeiro para mim.
Às vezes contamos histórias de missionários de tal maneira que quase retiramos deles a humanidade. Depois de alguns anos, ficam apenas os episódios de coragem e as frases memoráveis. Parece que esses homens nunca hesitaram diante de nada.
Não é assim neste livro.
E ainda bem.
Porque a coragem cristã não é ausência de medo. É possível estar com medo e continuar confiando em Deus.
Talvez uma das coisas mais bonitas do relato seja justamente perceber que o autor não sabia exatamente o que aconteceria no dia seguinte. Sua teologia da soberania de Deus precisou deixar o terreno seguro das afirmações doutrinárias e acompanhá-lo até a prisão.
Isso me fez pensar.
Eu creio na providência de Deus. Ensino sobre ela. Já preguei muitas vezes sobre a soberania divina. Mas existe uma diferença entre confessar que Deus governa todas as coisas e descansar nessa verdade quando não conseguimos enxergar o que Ele está fazendo.
O missionário precisou experimentar essa diferença.
Outro aspecto que me tocou foi pensar na família.
Quando falamos sobre perseguição religiosa, nossa atenção naturalmente se volta para quem foi preso. Mas uma prisão como essa alcança também quem espera do lado de fora.
Há esposa, filhos, parentes, amigos e irmãos em Cristo tentando descobrir o que está acontecendo. Existe o medo de que a prisão se prolongue, de que as acusações se agravem ou de que alguma informação fornecida durante o interrogatório coloque outras pessoas em perigo.
Isso me fez pensar novamente na maneira como nossas igrejas enxergam seus missionários.
Podemos reduzir missões a uma transferência mensal, algumas fotografias no mural e uma oração ocasional no culto. O livro mostra como isso é pouco.
Missionários continuam sendo ovelhas.
Precisam de igreja, amizade, cuidado pastoral e pessoas que se lembrem de seus filhos e compreendam seus períodos de cansaço. Quando uma família é enviada, a responsabilidade da igreja não termina no aeroporto.
Talvez comece ali.
Naturalmente, um livro sobre um missionário preso no Oriente Médio também nos obriga a pensar sobre nossa liberdade religiosa.
Fechei algumas páginas e pensei no privilégio que tenho todos os domingos.
Posso subir ao púlpito da Igreja Batista Raízes, abrir minha Bíblia e pregar Cristo sem precisar olhar para a porta para saber se alguém está vindo me prender.
Posso ensinar.
Posso evangelizar.
Posso publicar aquilo que prego.
Posso conversar abertamente sobre minha fé.
Tudo isso se tornou tão normal para nós que corremos o risco de deixar de perceber o tamanho da bênção.
Enquanto isso, irmãos nossos precisam pensar cuidadosamente onde se reúnem, com quem conversam e onde guardam uma Bíblia.
Não digo isso para produzir culpa. Culpa costuma produzir entusiasmo por alguns dias e depois desaparece.
O que esta leitura produziu em mim foi gratidão, acompanhada de uma pergunta um pouco incômoda: o que temos feito com toda a liberdade que recebemos?
Talvez seja essa uma das provocações mais importantes do livro para uma igreja brasileira.
Não precisamos desejar a perseguição para valorizar a fidelidade daqueles que vivem sob ela. Precisamos apenas permitir que o testemunho desses irmãos nos faça olhar com mais seriedade para nossa própria obediência.
Em determinado momento da leitura, lembrei-me das palavras de Paulo a Timóteo:
"Por ele estou sofrendo até algemas, como criminoso; contudo, a palavra de Deus não está algemada." (2Tm 2.9)
Não consegui pensar em texto melhor para acompanhar esta história.
O missionário ficou preso.
O Evangelho, não.
Essa distinção é importante porque nos ajuda a colocar a história no lugar correto. O livro não é, no fundo, sobre a capacidade extraordinária de um homem suportar dez dias de prisão. É sobre a fidelidade de Deus em continuar sua obra por meio de pessoas frágeis.
Isso também impede que transformemos sofrimento em espetáculo.
O cristianismo não precisa de heróis no sentido em que nossa cultura costuma entendê-los. Precisa de homens e mulheres comuns que estejam dispostos a obedecer a Cristo onde Ele os colocou.
Alguns farão isso numa cidade brasileira.
Outros atravessarão oceanos.
Alguns pregarão diante de centenas de pessoas.
Outros explicarão o Evangelho durante anos a um pequeno grupo de amigos.
E alguns talvez descubram que essa fidelidade possui um preço que nunca imaginaram pagar.
O chamado muda. O Senhor permanece o mesmo.
Opinião Sincera
Terminei 10 Anos em 10 Dias sem aquela vontade de dizer: "Eu gostaria de viver uma experiência dessas."
Não gostaria.
Não quero ser preso. Não quero saber como reagiria diante de um interrogatório. Não quero experimentar o medo de imaginar minha família sofrendo por causa de algo que aconteceu comigo.
E creio que admitir isso seja importante.
Mas quero possuir uma fé que continue verdadeira se um dia seguir Cristo me custar mais do que custa hoje.
Talvez tenha sido essa a pergunta que ficou comigo.
Depois de tantos anos pregando, ensinando e pastoreando, é possível nos acostumarmos com as verdades que anunciamos. Sabemos falar sobre providência, graça, perseverança e soberania. Conhecemos os textos bíblicos e conseguimos explicar as doutrinas.
Então aparece um livro como este e nos lembra que, em algum lugar do mundo, alguém precisou descobrir se essas verdades continuavam firmes quando a porta de uma cela se fechou.
Continuavam.
Não porque aquele missionário fosse feito de uma matéria diferente da nossa. Pelo contrário. Seu medo e sua fragilidade são justamente algumas das coisas que tornam seu testemunho tão precioso.
Deus o sustentou.
Foi isso que mais me marcou.
Talvez eu nunca seja chamado a testemunhar de Cristo numa prisão do Oriente Médio. Provavelmente minha fidelidade será provada de maneiras muito mais comuns: na constância do ministério, no amor pelas pessoas, na disposição de continuar pregando quando os resultados não aparecem, na coragem de permanecer bíblico quando seria mais fácil ceder e na perseverança de servir quando ninguém percebe.
Também precisamos de graça para isso.
Por essa razão, 10 Anos em 10 Dias não me deixou com vontade de ser como o missionário do livro.
Deixou-me com vontade de confiar mais no Deus que o sustentou.
E considero essa uma diferença importante.
Porque no final das contas, o melhor testemunho missionário não é aquele que nos faz admirar o missionário.
É aquele que nos faz confiar mais em Cristo.
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Nota: 9,5/10
Obra consultada
ESTEVÃO, Júnior. 10 anos em 10 dias: o relato de um missionário preso no Oriente Médio. São José dos Campos: Editora Fiel. 2025
