Em Busca de Sentido

                                                                          Viktor E. Frankl

Opinião Sincera

Resenha: n° 0.024

Por: Pr. Reginaldo Cresencio,

14 de agosto de 2026, São Carlos - SP.

Confesso que demorei um pouco para começar a escrever esta resenha. Não por falta do que dizer, mas justamente pelo contrário. Em Busca de Sentido é daqueles livros que continuam conversando conosco depois que terminamos a última página.

E talvez isso aconteça porque Viktor Frankl toca numa pergunta que, cedo ou tarde, todos nós teremos de enfrentar: o que sustenta nossa vida quando aquilo que nos fazia felizes começa a desaparecer?

É uma pergunta incômoda.

Enquanto temos família por perto, saúde, trabalho, planos para amanhã e alguma sensação de controle sobre a vida, talvez nem pensemos muito nisso. Mas basta uma dessas estruturas começar a ruir para descobrirmos que algumas das perguntas mais importantes da existência estavam apenas adormecidas.

Foi pensando nessas coisas que li Viktor Frankl.

E aqui existe algo que torna este livro diferente de muitos outros que tratam sobre sofrimento: Frankl não escreveu simplesmente como alguém que estudou a dor humana. Ele esteve dentro dela.

Médico, neurologista e psiquiatra austríaco, de origem judaica, Frankl foi preso pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e passou por campos de concentração, entre eles Auschwitz. Perdeu familiares, liberdade, profissão, manuscritos e praticamente tudo aquilo que havia construído.

Seu livro nasce desse lugar.

Mas Em Busca de Sentido não é simplesmente um relato dos horrores do Holocausto. Frankl observa o campo também como médico e psiquiatra. Enquanto sofre, observa. Enquanto tenta sobreviver, procura compreender o que acontece com o ser humano quando quase tudo lhe é retirado.

E é justamente aí que o livro começa a ficar fascinante. Quando quase tudo é retirado.

No campo de concentração, as diferenças sociais praticamente desapareciam. Professor, médico, comerciante, trabalhador, rico ou pobre: todos eram reduzidos a números.

Fome, frio, humilhação, violência e morte faziam parte do cotidiano.

Frankl percebeu, entretanto, que pessoas submetidas praticamente às mesmas condições reagiam de maneiras muito diferentes.

Algumas desistiam.

Outras se tornavam brutalizadas pelo ambiente.

Mas havia também aquelas que, mesmo não possuindo quase nada, ainda conseguiam repartir um pedaço de pão, oferecer uma palavra de consolo ou demonstrar compaixão.

Isso impressionou profundamente Frankl.

Os nazistas podiam retirar suas roupas.

Podiam retirar seus bens.

Podiam retirar seu nome e substituí-lo por um número.

Podiam controlar onde dormiria, o que comeria e quanto trabalharia.

Mas existia uma pequena região da existência humana que eles não conseguiam dominar completamente: a maneira como aquela pessoa responderia interiormente ao que estavam fazendo com ela.

E essa percepção atravessa todo o livro.

Não significa dizer que basta "pensar positivo". Seria até ofensivo reduzir Frankl a isso. Ele está falando de algo muito mais profundo: mesmo diante de circunstâncias que não podemos mudar, ainda existe uma responsabilidade sobre aquilo que faremos com elas.

Isso me fez parar algumas vezes durante a leitura.

Porque é muito fácil atribuir às circunstâncias a responsabilidade por aquilo que estamos nos tornando.

Frankl não nos permite fazer isso tão facilmente.

Talvez a ideia mais conhecida do livro seja também uma das mais simples: o homem precisa de uma razão para viver.

Frankl percebeu que os prisioneiros que ainda conseguiam enxergar algum propósito além daquele sofrimento frequentemente demonstravam maior capacidade de resistir.

Para um, poderia ser reencontrar alguém amado.

Para outro, terminar um trabalho interrompido.

Para outro, simplesmente acreditar que ainda havia alguma responsabilidade esperando por ele.

Frankl recorre à conhecida afirmação de Nietzsche: quem possui um "porquê" para viver consegue suportar quase qualquer "como".

Foi a partir dessas observações que se desenvolveu aquilo que conhecemos como logoterapia.

Enquanto outras escolas da psicologia colocavam grande ênfase na busca pelo prazer ou pelo poder, Frankl insistia que existe no ser humano uma profunda vontade de sentido.

Precisamos saber por que estamos vivendo.

E aqui comecei a perceber como um livro escrito a partir dos campos de concentração consegue falar tão diretamente com pessoas que vivem quase oitenta anos depois.

Temos quase tudo. Mas para quê?

Nossa geração possui coisas que Frankl dificilmente poderia imaginar enquanto estava preso.

Carregamos no bolso aparelhos capazes de acessar praticamente todo o conhecimento humano. Podemos conversar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta. Temos entretenimento disponível vinte e quatro horas por dia. Viajamos mais. Consumimos mais. Escolhemos mais.

E, mesmo assim, parece faltar alguma coisa.

Frankl chama isso de vazio existencial.

Achei essa expressão particularmente interessante.

Talvez parte do cansaço de nossa geração não venha apenas do excesso de trabalho, mas da falta de propósito. Corremos muito, fazemos muito, compramos muito, assistimos muito, publicamos muito...

Mas para quê?

Essa pergunta não é pequena.

Frankl percebe que a felicidade não funciona muito bem quando fazemos dela o grande objetivo da existência. Quanto mais desesperadamente tentamos ser felizes, mais facilmente a felicidade parece escapar.

Ela normalmente aparece como consequência.

Amamos alguém.

Servimos.

Trabalhamos por algo que consideramos importante.

Assumimos responsabilidades.

E, de repente, percebemos que experimentamos alegria enquanto estávamos ocupados vivendo para algo maior do que nós mesmos.

Aqui Frankl tem muito a dizer à nossa cultura.

Mas então me surgiu outra pergunta. Enquanto avançava na leitura, concordava com muita coisa.

Sim, precisamos de sentido.

Sim, uma pessoa consegue suportar circunstâncias terríveis quando possui uma razão pela qual viver.

Sim, o ser humano não foi feito para permanecer fechado dentro de si mesmo.

Mas comecei a fazer uma pergunta que Frankl, naturalmente, não responde da maneira como eu responderia:

Qual sentido?

Porque não basta dizer que precisamos de uma razão para viver.

Precisamos perguntar se essa razão é grande o suficiente para sustentar a vida inteira.

E aqui meu diálogo com Frankl deixou de ser apenas filosófico e tornou-se inevitavelmente teológico.

Como cristão, não acredito que o sentido último da minha existência seja algo que eu precise inventar.

Antes que eu existisse, Deus já existia.

Antes que eu pudesse decidir quem eu seria, fui criado à imagem de Deus.

Antes que eu pudesse escolher um propósito para minha vida, já havia um Criador diante de quem minha existência possuía significado.

A Bíblia começa de maneira extraordinariamente simples:

"No princípio Deus criou os céus e a terra." (Gn 1.1)

Isso realmente muda tudo.

Talvez a pergunta mais importante não seja:

"Que sentido darei à minha vida?"

Mas:

"Para que Deus me deu a vida?"

Parece uma diferença pequena.

Não é.

E o sofrimento?

Talvez tenha sido aqui que o livro mais me fez pensar.

Frankl não romantiza o sofrimento. E isso precisa ficar claro. Se uma situação dolorosa pode ser mudada, devemos procurar mudá-la. Não existe virtude em sofrer desnecessariamente.

Mas algumas dores simplesmente não pedem nossa autorização para entrar.

Uma enfermidade.

Uma despedida.

Uma decepção.

Uma perda.

Uma porta que não se abre.

Uma oração cuja resposta não veio como esperávamos.

O que fazemos quando não podemos mudar aquilo que está acontecendo?

Frankl responde que ainda podemos escolher a postura que assumiremos diante do sofrimento.

Achei isso muito precioso.

Mas novamente minha fé me leva um pouco além.

O cristianismo não me promete que entenderei todo sofrimento. Aliás, depois de tantos anos de ministério pastoral, aprendi a desconfiar de respostas muito rápidas diante da dor. Existem momentos em que uma presença silenciosa vale muito mais do que uma explicação teológica impecavelmente organizada.

A Bíblia também não chama o sofrimento de bom.

Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro.

A morte continua sendo chamada de inimiga.

Mas o Evangelho me diz algo extraordinário: Deus consegue redimir até aquilo que nos feriu.

José sofreu injustamente e, anos depois, conseguiu reconhecer a providência de Deus naquilo que seus irmãos haviam feito.

Paulo pediu que seu espinho fosse retirado e ouviu que a graça de Cristo seria suficiente.

E no centro de nossa fé está uma cruz.

Aquilo que parecia a maior derrota da história tornou-se o lugar onde Deus realizou nossa redenção.

Por isso, quando Frankl me diz que o sofrimento pode encontrar sentido, eu o escuto com atenção.

Mas quando olho para Cristo, descubro algo ainda maior: meu sofrimento não precisa fazer sentido para mim para continuar fazendo parte dos propósitos de Deus.

E isso, para mim, faz toda diferença.

Faço aqui uma ressalva que considero importante.

Em Busca de Sentido não é um livro cristão.

E não precisamos fingir que seja.

Frankl escreve como psiquiatra e como sobrevivente do Holocausto. Sua compreensão de Deus, transcendência e espiritualidade não corresponde em vários aspectos à teologia cristã histórica.

Tudo bem.

Uma das coisas que desejo preservar no Opinião Sincera é justamente a capacidade de ler autores com os quais não concordamos integralmente sem precisar caricaturá-los — ou batizá-los à força.

Prefiro ouvir Frankl com respeito.

E ele tem muito a nos dizer.

Talvez especialmente isto: uma vida voltada apenas para si mesma acaba se tornando pequena demais para o coração humano.

Aqui creio que podemos concordar bastante.

Opinião Sincera

Quando terminei Em Busca de Sentido, fiquei algum tempo pensando numa pergunta muito simples: O que sobraria de mim se algumas das coisas que considero mais importantes fossem retiradas?

Não sei se gostei da pergunta.

Talvez justamente por isso ela seja necessária.

É relativamente fácil falar sobre propósito quando as coisas estão bem. Outra coisa é continuar encontrando razões para levantar-se quando a vida nos apresenta aquilo que jamais escolheríamos.

Frankl viu isso de uma maneira que espero nunca experimentar.

Por isso, ouvi-lo merece respeito.

Ele me fez pensar novamente sobre sofrimento, liberdade, responsabilidade e esperança. Mas, curiosamente, quanto mais pensava sobre o sentido da vida durante a leitura, mais minha mente voltava para Cristo.

Minha família é preciosa para mim.

Meu ministério é precioso.

A igreja Batista Raízes que pastoreio é preciosa.

Os livros, os estudos, os projetos e tantas coisas que o Senhor me permitiu amar tornam minha vida extraordinariamente rica.

Mas nenhuma delas pode carregar sozinha o peso de ser o sentido último da minha existência.

Todas elas são dádivas.

Não são Deus.

E talvez tenha sido essa a maior contribuição desta leitura para mim.

Frankl me lembrou de que preciso de um "porquê" para viver.

O Evangelho me lembrou de que esse "porquê" não é uma ideia.

É uma Pessoa.

Cristo.

Nele não preciso inventar um significado para minha existência. Eu o recebo.

Nele não preciso fingir que a dor não dói. Posso chorar e ainda esperar.

Nele nem mesmo a morte consegue transformar minha história em absurdo, porque a ressurreição significa que ela não terá a última palavra.

Terminei, portanto, profundamente admirado pela lucidez de Viktor Frankl e ainda mais agradecido pela esperança que encontrei em Jesus Cristo.

Talvez essa seja uma das melhores coisas que posso dizer sobre um livro não cristão:

Frankl me fez fazer perguntas muito boas. E algumas delas me fizeram amar ainda mais a resposta que encontrei no Evangelho.

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Nota: 9,5

Obra consultada

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes. 2026