Cinco Pontos do Calvinismo: Depravação Total

Por: Bianca G. Campigotto
Quem aqui se acha merecedor do céu? E do inferno? Será que realmente compreendemos o quanto somos merecedores da condenação eterna e absolutamente indignos da glória celestial?
Neste estudo, abordaremos os chamados Cinco Pontos do Calvinismo, também conhecidos como os "Cinco Pontos da Graça". Esses pontos fazem parte daquilo que chamamos de doutrina da salvação (soteriologia), e são respostas bíblicas e sistematizadas a respeito de como Deus salva o homem pecador. Nosso objetivo aqui é lançar luz sobre como um Deus absolutamente justo pode redimir pecadores absolutamente depravados.
Por que começar pela depravação total?
Antes de entendermos quem é Deus e como Ele salva, precisamos encarar quem somos nós e o que fizemos contra Ele. Sem compreender a extensão da nossa miséria, jamais entenderemos a grandeza da graça de Deus.
Para entendermos minimamente a grandeza da salvação oferecida por Deus, precisamos começar pelo ponto mais doloroso — e, ao mesmo tempo, mais necessário: a nossa real condição diante de um Deus santo, santo, santo.
Fundamento Teológico e Histórico
Ao longo da história, a igreja enfrentou inúmeras distorções doutrinárias, tanto sobre a pessoa de Cristo (cristologia) quanto sobre o meio da salvação (soteriologia). Para proteger a verdade do evangelho, Deus levantou homens e concílios para defender a sã doutrina:
- Concilio de Niceia (325 d.C.) — declarou que Cristo é Deus.
- Concilio de Constantinopla (381 d.C.) — afirmou que o Espírito Santo é Deus.
- Concilio de Éfeso (431 d.C.) — ensinou que todos os seres humanos são pecadores desde o nascimento.
- Concílio de Calcedônia (451 d.C.) — proclamou que Cristo é plenamente Deus e plenamente homem.
A história dos 5 pontos do calvinismo se inicia muito antes da Reforma, com problemas na discussão e concessão com relação à soteriologia.
2.1 Pelágio e a negação do pecado original
No século V, Pelágio, um monge britânico, observando a vida relaxada de muitos cristãos, começou a negar o ensino bíblico do pecado original.
Pelágio começou a tirar a conclusão de que a doutrina do pecado original estava, na verdade, tornando os cristãos apáticos em relação à santidade. Seu desejo era preservar a necessidade de um estilo de vida santo. Então, ele começou a apresentar a ideia de que os cristãos são totalmente responsáveis por seu comportamento, e que Deus lhes dá a capacidade de escolher o certo ou o errado.
Influenciado por ideias filosóficas, ele ensinava que o homem nasce moralmente neutro e que, pelo seu livre-arbítrio, pode escolher o bem e a Deus. Segundo ele, a graça seria apenas um auxílio externo, mas não essencial para a salvação.
Sua doutrina foi refutada por Agostinho de forma bíblica e vigorosa. Pelágio foi condenado como herege no Concílio de Éfeso (431).
2.2 Arminianismo e o Sínodo de Dort
Séculos depois, após a Reforma Protestante, um teólogo chamado Jacobus Arminius retomou ideias similares ao semipelagianismo.
Arminiu não nega o pecado original, mas crê que, apesar do pecado, o homem tem um livre-arbítrio parcial. Deus oferece Sua graça a todos e dá ao ser humano a capacidade de responder positivamente ao chamado para a salvação.
Seus seguidores formularam os "Cinco Pontos dos Remonstrantes", que foram analisados no Sínodo de Dort (1618–1619).
O Sínodo de Dort veio para combater e refutar esses pontos, não criando uma nova doutrina a partir dos cinco pontos, mas sistematizando os princípios bíblicos declarados nas Escrituras, que evidenciavam o erro teológico dos remonstrantes.
Foi defendido a depravação total, ou seja, que o ser humano está espiritualmente morto devido ao pecado e é incapaz de buscar a Deus por conta própria. Somente a graça soberana de Deus pode conceder fé e salvação.
Daquele sínodo surgiu a formulação conhecida como os Cinco Pontos do Calvinismo, frequentemente representados pelo acróstico TULIP, em inglês.
O primeiro deles é a Total Depravação.
Duas coisas são importantes abordar antes de aprofundarmos no tema de hoje: pecado original e livre-arbítrio.
- As Escrituras nos deixam claro que, como descendência de Adão, nosso cabeça federal, a nossa natureza carrega a herança da corrupção da queda. TODO ser humano nasce caído e pecador. Não nascemos neutros, como afirmam alguns, e posteriormente somos corrompidos pelo meio. Na verdade, o meio é corrompido pelo homem — onde houver humanidade, ali haverá pecado. O pecado é universal: 1 Reis 8:46
"... pois não há ninguém que não peque..."
"Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram;"
Romanos 5:12
O Sínodo de Dort declara:
Erro 1 – É impróprio dizer que o pecado original, em si, é suficiente para condenar toda a raça humana ou merecer castigo temporal e eterno.
Refutação – Isto contradiz o apóstolo que declara:
"Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens porque todos pecaram." (Rm 5.12).
E o verso 16 diz:
"... o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação."
E em Romanos 6.23:
"O salário do pecado é a morte."
"Visto que a morte veio por meio de um só homem, também a ressurreição dos mortos veio por meio de um só homem. Pois da mesma forma como em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivificados." (1 Coríntios 15:21-22)
- E por termos a nossa natureza original comprometida, não possuímos mais o livre-arbítrio, ou seja, não temos mais uma livre escolha. Devido à queda, nós somos agora escravos do pecado, e toda escolha que fazemos é voltada ao pecado, tendenciosamente, sendo nós incapazes de escolher outra coisa a não ser isso.
¹⁰ "Como está escrito: 'Não há nenhum justo, nem um sequer; ¹¹ não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. ¹² Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer." (Romanos 3:10-12)
"Não é simplesmente que somos pecadores porque pecamos; pecamos porque somos pecadores."
Oferecemos, portanto, esta definição de pecado:
"Pecado é qualquer falta de conformidade, ativa ou passiva, com a lei moral de Deus. Isso pode ser uma questão de ato, de pensamento, ou de disposição ou estado interior."
(Erickson, 1997, p. 238)
O Que a Depravação Total Não É:
- Não significa que o homem é tão mal quanto poderia ser. A graça comum de Deus restringe a manifestação plena do mal.
- Não significa que os homens não podem praticar atos moralmente bons aos olhos da sociedade.
O ser humano caído ainda pratica boas obras devido à imago Dei.
Todo ser humano tem uma dignidade intrínseca e virtude inerente em si, pois todos somos descendência de Adão e criados à perfeita imagem e semelhança de Deus.
Mas mesmo os melhores atos do homem não regenerado são feitos sem fé e sem a intenção de glorificar a Deus, sendo, portanto, pecaminosos diante dEle.
"Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia"
Isaías 64:6
"Tudo o que não provém da fé é pecado"
Romanos 14:23
Mesmo atos nobres, como ajudar o próximo ou falar a verdade, quando não são motivados por fé e amor a Deus, não são agradáveis a Ele. O ser humano muitas vezes pode fazer o que é certo pelos motivos errados.
Depravação Total: O Que É:
"O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal."
Gênesis 6:5
A doutrina da Depravação Total ensina que, por causa da Queda em Adão, todo ser humano nasce espiritualmente morto, corrompido em todas as áreas do seu ser (mente, vontade, emoções e corpo), incapaz de buscar a Deus por si mesmo, nenhuma parte do seu ser permanece intocada pelo pecado. Não é só uma questão de cometer ou não um ato externo, mas não ser plenamente capaz de atingir o padrão divino.
Desde que Adão e Eva comeram do fruto, foi instaurada uma guerra. Nós estamos escravizados do lado do inimigo e sem desejo e capacidade nenhuma de declarar paz.
Quando falamos de depravação, estamos nos referindo ao homem natural sem a graça de Deus transformadora.
"Ele vos deu vida, estando vós mortos em vossos delitos e pecados"
Efésios 2:1
"Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo.
Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.
Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim.
Romanos 7:18-20
Essa corrupção total torna o homem espiritualmente incapaz de agradar a Deus ou responder positivamente ao evangelho, a menos que Deus o regenere soberanamente.
No Sínodo de Dort, os argumentos e refutações acerca da corrupção humana declaram:
Erro 4 – O homem não regenerado não é realmente ou totalmente morto em pecados, ou privado de toda capacidade para fazer o bem. Ele ainda pode ter fome e sede de justiça e vida, e pode oferecer sacrifício de espírito contrito e quebrantado que agrada a Deus.
Refutação – Estas afirmações são contrárias ao testemunho claro da Escritura:
"Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados." (Ef 2.1; cf. v.5)
"Era continuamente mau todo o desígnio do seu coração." (Gn 6.5; cf. 8.21)
Além do mais, somente os regenerados e os bem-aventurados têm fome e sede da libertação da miséria e da vida, e oferecem a Deus um sacrifício de espírito quebrantado (Sl 51.19 e Mt 5.6).
A Depravação do Homem é Total em Pelo Menos Quatro Aspectos:
1. Rebelião Contra Deus é total
O homem natural, sem a graça regeneradora de Deus, não se submete à Sua autoridade. Mesmo quando parece buscar a Deus, não o faz por amor ou rendição, mas por medo, autopreservação ou interesses próprios.
"A luz veio ao mundo,
mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram
más."
João 3:19
"Como está escrito: Não há justo, nem um sequer. Não há quem entenda, não há quem busque a Deus."
Romanos 3:10-11
O coração do homem natural foge da luz, pois ela expõe seus pecados. Não há nele nenhuma inclinação voluntária para a glória de Deus. A aparente busca espiritual do homem natural é, muitas vezes, idolatria disfarçada.
2. Tudo o Que o Homem Natural Faz é Corrompido Pelo Pecado
"Tudo o que não provém da fé é pecado."
Romanos 14:23
O ser humano pode fazer o que é moralmente correto diante dos homens, isso não significa que é santidade intencional. Logo, até o que parece ser bom é contaminado por motivações pecaminosas.
Lembremos de Caim:
ele fez a oferta conforme a vontade do Senhor, mas foi por Ele
rejeitada.
Muitos atos exteriores bons procedem de corações sem fé que não exaltam a Deus,
mesmo que ajam com virtudes oriundas da imago Dei.
"Sei que nada de bom habita em mim, isto é, na minha carne. Pois tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo."
Romanos 7:18
Paulo reforça que, sem a obra transformadora do Espírito Santo, somos total e inevitavelmente inclinados para o mal. Isso mostra que a depravação não é apenas uma falha de comportamento, mas uma condição do ser.
3. Incapacidade de Submissão a Deus é total
"A inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeita à
lei de Deus, nem mesmo pode estar. Os que estão na carne não podem agradar a
Deus."
Romanos 8:7-8
Sem a intervenção da graça de Deus, o homem é incapaz de obedecer ou agradá-Lo. Suas vontades estão escravizadas pelo pecado.
"Vocês estavam mortos em suas transgressões e pecados"
Efésios 2:1
Essa morte espiritual não é mera fraqueza ou dormência, mas uma incapacidade completa de se voltar para Deus.
4. Total Merecimento da Condenação Eterna
"Todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza filhos da ira." Efésios 2:3
A depravação total torna todos os homens merecedores da ira de Deus.
A diferença entre nós e os ímpios é que somos pecadores perdoados, pois todos nascemos em total depravação.
A realidade do inferno é uma clara acusação da infinitude de nossa culpa.
"O salário do pecado é
a morte"
Romanos 6:23
Não apenas a morte física, mas a morte eterna é o justo castigo do pecado. Por isso, a doutrina da depravação total exalta a justiça de Deus e destrói qualquer noção de mérito humano.
Ilustração: "The Walking Dead" (tradução literal: Os Mortos que Andam)
Sem o Espírito Santo, somos como zumbis espirituais: mortos, insensíveis, impulsionados por instintos destrutivos. Um zumbi não tem consciência nem vontade livre — ele age por escolha incontrolável e escravizada - ele apenas existe. Assim é o homem natural diante de Deus: sem vida espiritual, escravo de seus desejos e sem discernimento para escolher o bem.
"O que nasce da carne é carne, e o que nasce do Espírito é espírito. Importa-vos nascer de novo." João 3:6-7
Isso é o novo nascimento: sairmos da condição de morte eterna para vida eterna em Cristo Jesus.
Não somos pessoas melhoradas pelo Espírito, somos novas pessoas.
"Se alguém está em
Cristo, é nova criatura. As coisas antigas já passaram; eis que tudo se fez
novo."
2 Coríntios 5:17
Conclusão:
A depravação total vai nos lembrar constantemente que não há um pingo sequer de mérito em nós por Deus nos amar.
A doutrina da depravação total é um grito do ensino bíblico de Gênesis a Apocalipse: O homem necessita desesperadamente de um Salvador.
O homem é completamente incapaz de responder à oferta de salvação de Deus sem que Deus primeiro o regenere.
Citação do livro Tratado sobre a Oração – John Knox
"O Deus eterno está de um lado, e todos os homens naturais que descendem de Adão estão de outro. A justiça infinita de Deus é tão ofendida pelas transgressões de todos os homens, que de modo algum se pode alcançar a reconciliação, a não ser que se encontre alguém capaz de fazer plena reparação pelas ofensas cometidas. Entre os filhos dos homens, nenhum foi considerado capaz, pois todos foram tidos por criminosos na queda de um. E Deus, infinito em justiça, deve abominar a associação e o sacrifício dos pecadores."
A intenção deste estudo não é deprimi-los, nem desencorajar ou paralisar, mas para nos maravilhar diante da graça.
Como disse Piper:
"Conhecer a seriedade de nossa doença nos tornará ainda mais admiradores com a grandeza de nosso médico. [...] A maneira como adoramos a Deus e a forma como tratamos as pessoas, especialmente nossos inimigos, são profundamente transformadas quando compreendemos nossa própria depravação." (Piper)
Perguntas:
Semipelagianismo
Semipelagianismo é uma doutrina teológica que afirma que o ser humano, embora moralmente doente pelo pecado original, tem a capacidade de iniciar o processo de sua própria salvação, necessitando, contudo, da graça divina para completá-lo. Essa visão tenta conciliar o pelagianismo (que nega o pecado original) com as doutrinas da graça, tendo sido condenada como heresia no Concílio de Orange em 529 d.C.
Características do Semipelagianismo
- Pecado Original Parcial: O homem é considerado moralmente doente devido ao pecado original, mas não completamente incapaz de cooperar com Deus.
- Capacidade de Iniciar a Salvação: O homem tem a livre-vontade para se aproximar de Deus e iniciar sua busca pela salvação.
- Cooperação entre Homem e Deus: A salvação é um processo sinergético, onde a vontade do homem coopera com a graça divina para vencer o pecado.
- Dependência Parcial: A graça de Deus é necessária, mas não para dar o poder de desejar ou de se aproximar, e sim para "assistir" quem já começou a desejar.
"Arbítrio" refere-se ao poder ou capacidade de uma pessoa de fazer escolhas e tomar decisões de acordo com a própria vontade, sem coerção externa ou determinação total por fatores anteriores.
Bebês vão para o inferno?
Há cinco possibilidades para o que acontece com os bebês que morrem:
· Todos vão para o inferno. Baseado na premissa arminiana e pelagiana: se é necessário tomar a decisão consciente de crer em Cristo para ser salvo, então todos os bebês estão condenados.
- Somente os que são batizados vão para o céu. Essa é basicamente a visão católica, que confere poder salvífico ao ato cerimonial do batismo.
- Somente os bebês da aliança (filhos de crentes) vão para o céu. Essa visão é baseada na aliança abraâmica (Gênesis 17:7).
- Somente os eleitos vão para o céu, e os não eleitos vão para o inferno.
- Todos os bebês vão para o céu. Por causa da graça especial de Deus, todos os bebês — sejam filhos de crentes ou não — vão para o céu. Essa é também uma forma de afirmar que todos os bebês que morreram são eleitos.
Deus causa o pecado?
"Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: "Estou sendo tentado por Deus". Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta.
Cada um, porém, é tentado pela própria cobiça, sendo por esta arrastado e seduzido.
Então a cobiça, tendo engravidado, dá à luz o pecado; e o pecado, após ter-se consumado, gera a morte."
Tiago 1:13-15
Aminio- Graça previniente (que prevê)
A graça preveniente, um benefício universal da obra expiatória de Cristo, anula as consequências judiciais do pecado de Adão. Essa graça preveniente é estendida a todos e, na prática, neutraliza a corrupção recebida de Adão.
(Erickson, 1997, p. 267)
A herança do pecado original é injusta?
Ler páginas 267/268/269 – livro Introdução a teologia sistemática
As diferentes visões se concentram em dois conceitos principais sobre a relação entre Adão e seus descendentes:
Representação Federal: Adão é o representante ou cabeça de aliança de toda a humanidade. Seu pecado é legalmente imputado a todos. A humanidade é culpada devido ao ato de Adão.
Representação Seminal (ou Realismo): A humanidade estava literalmente presente na semente de Adão. Quando ele pecou, todos participaram do ato. A humanidade é culpada porque pecou nele.
As tradições ocidentais (católica e protestante) geralmente afirmam tanto a culpa original quanto a corrupção original.
A visão agostiniana (representação seminal), historicamente dominante, sustenta que o pecado e a culpa são transmitidos biologicamente. Ao pecar, todos pecaram nele (in quo omnes peccaverunt — "em quem todos pecaram"). A natureza do pecado original é uma culpa legal e uma corrupção moral herdadas, que colocam cada pessoa sob a condenação de Deus desde a concepção. Leva a uma forte doutrina de depravação total, onde todos os aspectos da natureza humana estão corrompidos. O conceito agostiniano de transmissão do pecado por ato sexual silenciosamente foi deixado de lado com o avanço das fertilizações in vitro no final do século XX.
Ja visão escolástica (agostinianismo refinado) da teologia medieval (e.g., Tomás de Aquino) sistematizou a visão agostiniana, focando na perda. O principal problema é a perda da justiça original (a graça que orientava a humanidade para Deus), transmitida biologicamente, ou como diríamos hoje, no DNA, resultando na concupiscência (desejos desordenados). A natureza do pecado original foi a privação da justiça original, levando à corrupção das faculdades humanas. A culpa ainda é transmitida, mas o foco recai mais sobre a corrupção da natureza. O batismo remove a culpa do pecado original, mas não erradica totalmente a concupiscência.
O luteranismo reafirmou fortemente o agostinianismo. Enfatiza ainda mais a depravação total e a culpa original. O pecado é uma condição positiva e rebelde que permeia a natureza humana. A natureza humana é corrompida e culpada. O livre arbítrio está escravizado ao pecado, necessitando de uma salvação monergística (obra exclusiva de Deus) pela graça somente. Na interpretação de Romanos 5:12 entende-se que todos estão incluídos no pecado de Adão e, portanto, nascem pecadores e culpados.
Na visão da representação federal (reformada) centra-se no aspecto da aliança. Adão foi o representante da aliança (federal head) de toda a humanidade sob um "Pacto de Obras". Sua desobediência é legalmente imputada a todos, não porque a humanidade estivesse seminalmente presentes, mas porque ele foi seu representante nomeado. As pessoas nascem culpadas devido à transgressão de Adão (culpa imputada) e com uma natureza corrompida (poluição herdada). A interpretação de Romanos 5:12 é que o sentido é que todos pecaram em Adão, seu representante. Esta visão estabelece um paralelo teológico com a justificação: assim como a culpa de Adão é imputada à humanidade, a justiça de Cristo é imputada aos crentes por meio da união com Ele.
A tradição oriental rejeita a transmissão da culpa de Adão. A humanidade herda as consequências do pecado de Adão – principalmente a mortalidade (corrupção e morte) – mas não a sua culpa legal. Não há uma culpa legal, mas uma doença espiritual ou corrupção ("pecado ancestral"). O problema primário é a morte, que enfraquece a natureza humana, levando ao pecado pessoal (o pecado é um sintoma da mortalidade). A salvação é vista como cura (a theosis, ou deificação) e vitória sobre a morte por meio da ressurreição de Cristo, em vez de satisfação de uma penalidade legal.
Na visão anabatista (e tradição de igrejas livres) enfatiza a responsabilidade pessoal e rejeita a culpa herdada. A humanidade herda uma inclinação pecaminosa ou um ambiente corrompido, mas não a culpa de Adão. Cada pessoa é responsável apenas pelos seus pecados voluntários. A queda de Adão representa a fraqueza moral ou forte tendência a pecar, mas não uma depravação total que elimina o livre arbítrio. Bebês nascem inocentes, estando sob a graça de Deus até atingirem a "idade da responsabilidade" e pecarem por vontade própria. Isso leva ao batismo de crentes (pois os bebês não são considerados pecadores nascidos que necessitam de limpeza da culpa original) e à ênfase no discipulado e na capacidade de escolher seguir a Cristo.
Bibliografia - Referencias:
Livros:
- Cinco pontos: Em direção a uma experiencia mais profunda da graça de Deus – John Piper (Piper)
- Os 5 dilemas do calvinismo – Craig R. Brown
- Introdução a Teologia Sistemática – Millard J. Erickson
BÍBLIA SAGRADA
- Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.
OS CÂNONES DE DORT. https://ipbvit.org.br/files/2018/01/Ca%CC%82nones-de-Dort.pdf - 09/01/2018
Sermões:
- Depravação Total (Parte 1 e 2) | O Que é Teologia Reformada? - R.C. Sproul .
https://www.youtube.com/watch?v=UEqvL8v7Gmc
- Somos Totalmente Depravados - Augustus Nicodemus.
https://www.youtube.com/watch?v=2il5_p1y990
- Os Cânones de Dort – Aulas de 01 á 03/10 - Franklin Ferreira.
https://www.youtube.com/watch?v=8SxkKLcbqV4&t=6s
- A verdade sobre a depravação humana: Hernandes Dias Lopes.
https://www.youtube.com/watch?v=D9bpsj5QbVQ
- A Origem e o Problema do Mal - Augustus Nicodemus, Leandro Lima e Heber Campos Jr.
https://www.youtube.com/watch?v=YPKZoMQWHOg
OpenAI. ChatGPT – Assistente de escrita e revisão teológica. Modelo GPT-4o. 2025. Disponível em: https://chat.openai.com. Acesso em: 09/10/2025.
