Cristologia: Jesus Cristo, o Filho do Homem

Por: Bianca G. Campigotto
Introdução
Mateus 16:13-17
¹³ Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, perguntou aos seus discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?"
¹⁴ Eles responderam: "Uns dizem que é João Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias ou algum dos profetas."
¹⁵ "E vocês?", perguntou Ele. "Quem vocês dizem que Eu sou?"
¹⁶ Simão Pedro respondeu: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo."
¹⁷ Jesus respondeu: "Bem-aventurado é você, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que lhe revelaram isso, mas meu Pai que está nos céus."
Neste diálogo, é o próprio Jesus quem faz a pergunta a respeito dEle mesmo. Ese hoje Ele nos perguntasse também:
"E você, quem diz que Eu sou?"
Saber responder a essa pergunta, com fidelidade e convicção, resume o propósito da nossa existência, tanto nesta era quanto na era por vir.
Muitas pessoas dão muitas respostas a cerca da pessoa de Jesus: citar exemplos.
- Para os fariseus e mestres da lei, Cristo era amigo dos pecadores e blasfemo. (Marcos 2:15-16)
- Para Pilatos, Cristo era um inocente. (Mateus 27:24) "Estou inocente do sangue deste justo."
- Para João batista, Cristo é o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, a única esperança de salvação eterna. (João 1:29) "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo."
- Para Pedro, Jesus é o filho do Deus vivo. (Mateus 16:15-16) "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo."
- Para Paulo: Ele é a imagem do Deus invisível. (Colossenses 1:15-20) "O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação.
E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência."
- Para os demônios, Jesus é o Filho do Deus Altíssimo. (Lucas 8:26-28) "Quando viu Jesus, gritou, prostrou-se aos seus pés e disse em alta voz: "Que queres comigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Rogo-te que não me atormentes! "
- O cantor Elton John, homossexual assumido declarou em uma reportagem que Jesus Cristo era gay ele disse: "Eu acho que Jesus era um homem superinteligente, misericordioso e gay, que entendia os problemas humanos".
- Bruna Marquezine, em uma entrevista recentemente disse: "Jesus é um cara legal."
- John Lennon em 1966, numa entrevista, afirmou: "O cristianismo irá embora. Vai desaparecer e encolher. Eu não preciso discutir sobre isso; eu estou certo e ficará provado que estou certo. Somos mais populares que Jesus agora. Eu não sei quem vai acabar primeiro, o rock'n'roll ou o cristianismo. Jesus era legal, mas seus discípulos são grossos e medíocres...".
A verdade é que Jesus não é quem nós achamos que Ele é, nem quem as pessoas dizem que Ele seja.
Jesus é quem Ele mesmo declara ser.
Ao longo dos Evangelhos, vemos que o próprio Cristo escolheu, de forma intencional e recorrente, se referir a si mesmo como "o Filho do Homem".
Essa designação aparece mais de 50 vezes nos Evangelhos, sem contar os textos paralelos, um título que Ele adotou com frequência, mais do que qualquer outro.
Portanto, é digno de nossa atenção e reverência considerar, com esmero e cuidado minucioso, o que de fato significa o título "Filho do Homem" — e o que ele revela sobre a identidade do nosso Senhor Jesus Cristo.
A identidade de Jesus
Sabemos que Jesus possui duas naturezas distintas, que existem sem confusão, sem mudança e sem separação — Ele é 100% homem e 100% Deus. Chamamos isso de união hipostática.
Essa verdade central da cristologia bíblica é um dos fundamentos da nossa salvação.
"Esse é, provavelmente, o milagre mais incrível de toda a Bíblia: o terno Filho de Deus totalmente divino tornou-se plenamente humano e, fazendo assim, uniu-se à natureza humana para sempre. Jesus, um homem diferente de qualquer outra pessoa que o mundo viu e verá, uniu eternamente tanto infinito quanto o finito e mudou o curso da história para sempre.''
(Grudem, 2024, p. 87)
Existe um entendimento comum de que Jesus é chamado de Filho do Homem quando se destaca Sua natureza humana, e de Filho de Deus quando se enfatiza Sua divindade. No entanto, essa distinção, embora didaticamente útil, não deve ser confundida com uma separação real em Sua Pessoa.
A própria Escritura nos mostra que, ao referir-se a Si mesmo como Filho do Homem, Jesus o faz justamente em contextos que revelam Sua glória divina por meio de Sua humanidade.
Considere os seguintes textos:
"Mas, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados..." — (Mateus 9:6)
"Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido." — (Lucas 19:10)
"Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem." — (João 3:13)
"como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos". — (Mateus 20:28)
Note que, em todos esses textos, Jesus usa o título "Filho do Homem" não como uma simples expressão de humanidade, mas como uma declaração de autoridade celestial e messiânica.
O Significado de "Filho do Homem"
Para compreendermos plenamente o significado de Jesus se autodenominar "Filho do Homem", precisamos voltar nossos olhos para o Antigo Testamento, para a origem dessa expressão, para a profecia de Daniel 7:13-14:
"Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele.
Foi-lhe dado domínio, glória e o reino, para que todos os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído." (Daniel 7:13-14)
Este é o ponto de origem mais importante do título "Filho do Homem".
Não era um título comumente atribuído a Jesus pelos outros — com exceção de Estêvão em Atos 7:56.
Os judeus conheciam bem essa profecia e sabiam que Jesus estava se identificando com a figura celestial a quem Deus Pai concede domínio eterno.
Enquanto a expressão "filho do homem" em outras partes do Antigo Testamento pode simplesmente significar "ser humano" (como em Ezequiel), no contexto de Daniel 7 ela é usada com um peso escatológico e glorioso: seria um final de juízo e vitória celestial — algo que, para a tradição judaica, só pode ser atribuído a Deus.
Ao adotar esse título, Ele está afirmando:
- Sua origem celestial — "vindo com as nuvens do céu", linguagem bíblica que sempre aponta para glória e divindade;
- Sua autoridade messiânica — pois Lhe foi dado domínio, glória e um reino eterno;
- Seu papel no juízo final — como revelado em Mateus 25:31-32, quando Ele virá em glória para julgar as nações e seria exaltado;
- Sua verdadeira humanidade, sem jamais abrir mão de Sua plena divindade.
Jesus, portanto, declara ser o cumprimento final das promessas reveladas a Daniel: o Messias exaltado, Senhor sobre todas as coisas, e Juiz dos vivos e dos mortos.
Explicação da profecia:
Ele é rei de um reino vindouro e eterno!
O título "Filho do Homem", ao ser aplicado a Jesus, revela que Seu Reino, embora inaugurado em Sua primeira vinda, não é de natureza terrena, passageira ou limitada, mas celestial, eterno e invencível. Cristo inaugurou sei reinado na cruz, e esse Reino de Deus será plenamente consumado em sua segunda vinda, quando toda autoridade será visivelmente exercida por Cristo sobre tudo e todos.
¹⁴ Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído.
Daniel 7: 14
Aqui, é declarado que um grande conflito iria acontecer, e o Grande Rei conquistador, o Filho do Homem, vencerá definitivamente. Essa imagem poderosa também nos remete à primeira promessa messiânica em Gênesis 3:15 — a semente da mulher que pisaria a cabeça da serpente. Em Gênesis, temos o anúncio da guerra entre os filhos de Deus e os filhos do diabo; em Daniel, vemos como essa guerra culminará na vitória definitiva do Messias exaltado.
Era esse messias que os judeus aguardavam, um rei poderoso e dominador na era presente.
Jesus é aquele que foi Cordeiro — manso, humilhado, sofredor — mas que agora se revela como o Filho do Homem glorificado, Rei dos reis e Senhor dos senhores.
Jesus declara aqueles homens de sua época, que Ele como o Filho do Homem traria uma libertação muito mais profunda e definitiva, não meramente política e terrena, mas espiritual, cósmica e eterna.
Esse Reino não viria por meio da espada, mas por meio da cruz.
Antes da exaltação, era necessário passar pela humilhação. Antes da coroa, viria o madeiro.
Entre a inauguração e a consumação!
Ao afirmar ser o Filho do Homem, o Cristo encarnado estava declarando que veio para vencer a guerra, mas que haveria um intervalo entre essa vitória e sua plena consumação. Este intervalo é o tempo em que vivemos: o já e o ainda não do Reino de Deus.
A vitória já foi conquistada na cruz e na ressurreição, mas ainda será plenamente manifesta na consumação dos séculos, quando o reinado de Cristo será visível, final e incontestável. Haverá um processo ordenado por Deus: julgamento e condenação do mal, a separação entre os que pertencem ao Cordeiro e os que serão lançados no lago de fogo junto com Satanás e seus anjos.
³¹ Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso.
João 12:31
²¹ Eu olhava e eis que este chifre fazia guerra contra os santos e prevalecia contra eles,
²² até que veio o Ancião de Dias e fez justiça aos santos do Altíssimo; e veio o tempo em que os santos possuíram o reino.
Daniel 7:21,22
²⁶ Mas, depois, se assentará o tribunal para lhe tirar o domínio, para o destruir e o consumir até ao fim.
²⁷ O reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será reino eterno, e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão. Daniel 7:26,27
A expressão "Filho do Homem" nas palavras de Jesus carrega o peso da profecia, da soberania e do juízo. Ela aponta para Aquele que venceu, que reina, e que voltará — não como servo sofredor, mas como Rei glorificado para consumar todas as coisas.
Conclusão
Nos tempos bíblicos, o nome de uma pessoa não era apenas uma designação funcional, mas uma expressão da sua identidade e natureza. Era comum que nomes e títulos revelassem quem a pessoa era e a que ela pertencia. Exemplos como Jesus de Nazaré, João Batista, ou Paulo de Tarso mostram essa ligação entre identidade e origem. Títulos descritivos também eram usados: Tiago e João, filhos do trovão; ou filhos da desobediência, quando a Escritura se refere aos ímpios.
Lembro de algo curioso
contado por amigos mineiros: no interior de Minas, quando alguém quer conhecer
outra pessoa ou simplesmente satisfazer sua curiosidade, costuma perguntar:
"Você é filho de quem?"
Essa pergunta simples aponta para algo profundo: a origem revela a essência.
Mas quando Jesus faz a declaração de que Ele era o Filho do Homem, com o artigo definido o, Ele não está apenas dizendo que tem a origem e a essência de Deus, mas que Ele mesmo é Deus. Pois ao contrário de Nós, Deus-Jesus não possui origem e consequentemente essência, Ele era, É e para sempre será.
Foi por isso que os fariseus procuraram matar Jesus: porque Ele se declarou o Filho do Homem, sendo, portanto, o próprio Deus.
¹⁸ Por essa razão, os judeus ainda mais queriam matá-lo, pois não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.
(João 5:18)
Em outras palavras, Jesus declara: "Eu, o Deus encarnado, vim como o Filho do Homem verdadeiro, aquele que Adão falhou em ser."
Pois, ao criar Adão, essa era a essência da imagem e semelhança de Deus: sermos verdadeiramente homens, reflexo perfeito do Criador.
No entanto, somente Jesus conseguiu ser o verdadeiro e perfeito homem, sendo Ele mesmo a imagem do Deus invisível.
Nas palavras de Lutero: Jesus é o Verdadeiro Homem.
O primeiro Adão, o primeiro homem, pecou e caiu. Jesus é o segundo Homem e o último Adão. Adão foi criado para ser o Filho do Homem e exercer domínio em nome de Deus, desfrutando do caráter gracioso de Deus por meio do tríplice ofício:
- Profeta – declarando a glória de Deus; (o verdadeiro profeto)
- Sacerdote – realizando o culto devido ao nosso Deus; (o sumo sacerdote)
- Rei – governando sobre a criação, como bom mordomo Daquele que detém todas as coisas. (Rei conquistador)
Nas palavras dos autores, "Era como se Deus estivesse dizendo:
'Agora, Adão, para que possamos desfrutar da companhia um do outro, estou lhe dando um gostinho do que conheço e desfruto infinitamente como Criador e Provedor. Então, aqui está um pequeno jardim. Vou lhe dar algo com que começar. Quero que você seja senhor não apenas deste jardim; quero que você tenha domínio sobre tudo na terra. E, quando isso acontecer, você descobrirá que me conhecerá e me amará ainda mais! Além disso, poderei amá-lo ainda mais à medida que eu, seu Pai, observar você, meu filho, crescendo em suas habilidades e em sua compreensão sobre mim e em seu amor por mim. Teremos muito que conversar conforme você cresce até a maturidade.'
Deus desejava que Seu filho desfrutasse de experiências compartilhadas, e que essas experiências conduzissem a um relacionamento profundo e à plena comunhão.
¹⁹ Jesus lhes deu esta resposta: "Eu lhes digo verdadeiramente que o Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer, porque o que o Pai faz o Filho também faz.
João 5:19
Isso é ser o Filho do Homem: é ser a perfeita imagem de Deus e cumprir o destino divino que leva a um mundo ordenado e completo.
Jesus veio e se fez O Filho do Homem, para que nós pudéssemos recuperar o grande privilégio e honra de sermos novamente filhos de Deus.
E esta é a nossa esperança!
É nisso que baseamos a nossa fé: o alívio na guerra presente que enfrentamos. Sabemos que o Senhor reina soberanamente, e por isso não somos consumidos.
¹ Do Senhor é a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele vivem;
² pois foi ele quem fundou-a sobre os mares e firmou-a sobre as águas.
³ Quem poderá subir o monte do Senhor? Quem poderá entrar no seu Santo Lugar?
⁴ Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, que não recorre aos ídolos nem jura por deuses falsos.
⁵ Ele receberá bênçãos do Senhor, e Deus, o seu Salvador lhe fará justiça.
⁶ São assim aqueles que o buscam, que buscam a tua face, ó Deus de Jacó.
⁷ Abram-se, ó portais; abram-se, ó portas antigas, para que o Rei da glória entre.
⁸ Quem é o Rei da glória? O Senhor forte e valente, o Senhor valente nas guerras.
⁹ Abram-se, ó portais; abram-se, ó portas antigas, para que o Rei da glória entre.
¹⁰ Quem é esse Rei da glória? O Senhor dos Exércitos; ele é o Rei da glória!
Salmos 24:1-10
Jesus é o Filho do Homem, o Rei da Glória, que já venceu as forças do maligno e esmagou a cabeça da serpente.
E, por meio do Seu sangue na cruz, pela Sua graça, aguardamos com fé o Reino vindouro e eterno, sob o qual reinaremos com o Rei dos reis e Senhor dos senhores.
Bibliografia - Referencias:
Livros: Nome acima de Todo Nome – Alistair Begg e Sinclair B. Ferguson - CAPÍTULO 05: Jesus Cristo, o Filho do Homem!
BÍBLIA SAGRADA
- Bíblia de Estudo Almeida Revista e Atualizada.
Lutero, Martinho. As Obras Selecionadas de Lutero. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2015.
(para a citação: "Jesus é o Verdadeiro Homem")
Calvino, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
(para conceitos como imagem de Deus, natureza humana e tríplice ofício de Cristo)
Segunda Confissão Batista de Londres de 1689. Editora Os Puritanos, 2017.
(para estrutura doutrinária, especialmente sobre Cristo como Mediador)
Grudem, Wayne. (Grudem, 2024) Bases da Fé Cristã.
OpenAI. ChatGPT – Assistente de escrita e revisão teológica. Modelo GPT-4o. 2025. Disponível em: https://chat.openai.com. Acesso em: 26/07/2025.
Perguntas:
Ancião de dias
O livro de Daniel, do capítulo 2:4 ao capítulo 7, foi escrito em aramaico. A expressão "Ancião de Dias" no original é:
- ʿattîq = "ancião", "antigo", "veterano"
- yômîn = "dias"
Portanto, ʿattîq yômîn significa literalmente "Antigo de Dias" ou "Ancião dos Dias", uma expressão que carrega a ideia de eternidade, sabedoria e autoridade soberana.
Na tradição reformada e em boa parte da exegese cristã ortodoxa, o "Ancião de Dias" é compreendido como uma representação de Deus Pai:
- Sua eternidade é destacada pelo título "Ancião" (não se refere à idade cronológica, mas à preexistência eterna).
Isso mostra uma distinção entre as pessoas da Trindade, mas um só Deus em essência.
A expressão "Ancião de Dias", à luz da teologia reformada, não é apenas uma imagem poética de Deus, mas uma declaração de Sua eternidade, soberania e santidade, em contraste com os reinos passageiros do mundo. Ao se encontrar com o "Filho do Homem", vemos um dos vislumbres mais claros no Antigo Testamento da Trindade e da exaltação do Messias.
