Em Adão Morremos, em Cristo Vivemos -Rm 5.12-21

Sermão: n° 3.135
Por: Pr. Reginaldo Cresencio,
Pregado na noite de domingo, 01 de fevereiro de 2026,
na Igreja Batista Raízes, São Carlos - SP.
Texto base: Romanos 5.12–21
Introdução
Em Romanos 5.1–11, o apóstolo Paulo nos conduziu a saborear os frutos benditos da justificação. Ele nos mostrou que, uma vez declarados justos pela fé, passamos a desfrutar de realidades gloriosas: paz com Deus, acesso permanente à graça, esperança da glória, alegria que persevera mesmo em meio às tribulações e reconciliação consumada pelo sangue de Cristo. Ali aprendemos o que a justificação produz na vida do crente.
Contudo, Paulo sabe que o coração atento não se satisfaz apenas com os efeitos; ele deseja compreender o fundamento. Surge então uma pergunta inevitável: por que essa paz é tão segura? Em que base ela se sustenta quando o pecado ainda nos assedia diariamente e a morte continua rondando o mundo? A resposta não está em nossos sentimentos, nem na força subjetiva da nossa fé, mas em algo infinitamente mais profundo, objetivo e sólido.
É exatamente aqui que Romanos 5.12–21 entra como uma das passagens mais densas de toda a Epístola. Paulo desce à gênese da história humana para mostrar que a nossa paz repousa numa troca real e histórica: de Adão para Cristo, do reino da morte para o reino da graça. Se em Romanos 5.1–11 celebramos os efeitos da justificação, agora contemplamos o seu fundamento histórico, representativo e federal, que torna esses efeitos absolutamente inabaláveis.
Romanos 5.12–21 nos apresenta a espinha dorsal da história da humanidade: dois homens, duas cabeças representativas, dois reinos, dois destinos. Paulo não está falando apenas de escolhas individuais, mas de pertencimento, de identidade, de solidariedade racial e espiritual. Todos nós, por natureza, pertencemos à humanidade de Adão, marcada pelo pecado, pela condenação e pela morte. Pela fé, porém, somos transferidos para a humanidade de Cristo, marcada pela justiça, pela vida e pela graça que reina.
Este texto nos conduz do berço da queda ao trono da graça.
1. Por um homem entrou o pecado, e pelo pecado a morte (5.12)
Paulo inicia com uma afirmação abrangente, quase solene, que lança luz sobre toda a condição humana:
"Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram."
O pecado não entrou no mundo como uma abstração filosófica nem como uma força impessoal. Ele entrou por meio de um ato histórico e concreto de desobediência. Adão, criado como cabeça representativa da raça humana, não agiu apenas como indivíduo, mas como representante federal de toda a sua descendência. Quando ele caiu, caiu conosco.
As consequências dessa queda são universais e profundas: culpa, corrupção e morte. A morte aqui não se limita ao término biológico da existência, mas envolve separação espiritual de Deus, ruptura relacional e, finalmente, morte eterna. Ela se espalhou a todos porque todos pecaram em Adão.
Por isso, o problema humano não é superficial nem meramente comportamental. Não se trata apenas de más escolhas que precisam de correção moral. Trata-se de uma condição ontológica: estamos espiritualmente mortos. O que precisamos não é de educação religiosa, mas de redenção.
2. O pecado reinou mesmo antes da Lei (5.13–14)
Paulo antecipa uma possível objeção e esclarece que o pecado já operava plenamente antes da promulgação da Lei mosaica. Mesmo sem mandamentos explícitos como os do Sinai, a morte reinou desde Adão até Moisés, inclusive sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão direta de Adão.
Isso demonstra que a morte não é consequência apenas da violação consciente de mandamentos específicos, mas da própria condição adâmica. A Lei não criou o pecado; ela o revelou. Ela não produziu a morte; ela a expôs.
Paulo afirma que Adão é "tipo daquele que havia de vir". Ou seja, Adão aponta, por contraste, para Cristo. Assim como Adão representou muitos para a morte, Cristo representará muitos para a vida.
O evangelho não trata sintomas; ele cura a raiz. Ele não maquila a ferida; ele ressuscita o morto.
3. A superioridade do dom gracioso sobre a ofensa (5.15)
Paulo introduz o primeiro contraste: "Mas o dom gratuito não é como a ofensa."
Se pela ofensa de um só muitos morreram, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, abundaram para muitos. O apóstolo faz questão de enfatizar a assimetria: o pecado foi devastador, mas a graça é superabundante.
A queda foi profunda, mas a redenção foi ainda mais poderosa. Onde o pecado se mostrou destruidor, a graça se revelou triunfante. O mal nunca teve a última palavra; a graça sempre falou mais alto.
Nunca subestime o alcance do dom de Deus. Nunca pense que o seu pecado é maior do que a graça de Cristo.
4. De uma condenação a uma justificação (5.16–18)
Paulo aprofunda o contraste:
- Uma ofensa trouxe condenação;
- Um ato de justiça trouxe justificação que dá vida.
Adão nos levou ao tribunal; Cristo nos levou à absolvição. Mas mais do que absolvição, Cristo nos concedeu vida. A justificação não é apenas perdão do passado, mas declaração de um novo status, de uma nova existência diante de Deus.
Nossa identidade já não é definida pela queda em Adão, mas pela nossa nova posição em Cristo. Não somos mais conhecidos pelo primeiro homem, mas pelo último Adão.
"Se pela ofensa de um só a morte reinou, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, Jesus Cristo."
A morte reina como tirana; a graça reina como rainha. Em Cristo, não apenas escapamos da morte, reinamos em vida.
O evangelho não nos chama a sobreviver, mas a viver debaixo do reinado da graça.
A Lei não foi dada para salvar, mas para expor. Seu papel foi tornar o pecado evidente, para que a graça se tornasse ainda mais gloriosa. A graça não relativiza o pecado; ela o derrota. Ela não o ignora; ela o vence por meio da justiça satisfeita em Cristo.
5. O reinado final da graça para a vida eterna (5.21)
Paulo conclui com um clímax glorioso:
"Para que, assim como o pecado reinou na morte, também a graça reine pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor."
O último reinado não pertence ao pecado, nem à morte, mas à graça soberana. A história humana não caminha para o caos, mas para a consumação da vida eterna em Cristo. Se a graça reina, vivamos como cidadãos do seu reino.
Aplicações Práticas
1. Viva a partir da sua nova identidade
Pare de se definir apenas pelos seus pecados, quedas ou fraquezas atuais.
Em Adão, você foi definido pela culpa; em Cristo, você é definido pela graça.
Pergunte a si mesmo:
Minhas decisões diárias partem da culpa ou da gratidão?
Luto contra o pecado como alguém condenado ou como alguém já perdoado?
Comece suas orações lembrando conscientemente quem você é em Cristo antes de pedir qualquer coisa. Diga: "Pai, eu venho a Ti não em Adão, mas em Cristo."
2. Lute como quem reina, não como quem foge
O pecado ainda habita em nós, mas não reina mais sobre nós.
A morte reinou em Adão; a graça reina em Cristo.
Não lutamos para evitar condenação. Lutamos porque já fomos libertos dela.
Quando cair, não se esconda de Deus. Corra para Ele. Confesse rapidamente, arrependa-se sinceramente e levante-se confiantemente, lembrando: "Onde abundou o pecado, superabundou a graça."
3. Enfrente a culpa e a acusação com o evangelho
Muitos crentes vivem assombrados por um passado que Deus já perdoou.
Mas Romanos 5 nos lembra: a condenação ficou em Adão; a justificação está em Cristo.
Quando a culpa acusar: Lembre-se: ela não vem do trono da graça. A cruz já respondeu a essa acusação.
4. Rompa ciclos herdados em Adão
Todos herdamos padrões quebrados: pecados repetidos, reações destrutivas, histórias difíceis.
Mas em Cristo, a herança mudou.
Você não está condenado a repetir a velha história.
Uma nova humanidade começou em Cristo.
Busque viver a fé de modo visível diante dos filhos e do cônjuge.
Seja paciente com os fracos, misericordioso com os que falham, humilde nos conflitos.
Lembre-se: você não é melhor que ninguém, apenas alcançado pela mesma graça.
Ore para que Deus lhe dê oportunidades simples de falar do evangelho como boa notícia, não como peso moral.
5. Por fim — Viva a partir do que Cristo fez
Romanos 5.12–21 nos chama a uma mudança de eixo:
- não viver tentando compensar Adão, mas viver celebrando Cristo.
- Obedeça não para ser aceito, mas porque já foi aceito.
- Lute não por medo da morte, mas pela alegria da vida.
Sirva não para ganhar um lugar, mas porque já pertence a uma nova humanidade.
Conclusão — Em Qual Humanidade Você Vive?
Romanos 5.12–21 nos confronta com uma pergunta decisiva e inevitável: em quem você está? Em Adão, tudo termina em morte. Em Cristo, tudo começa com vida. O evangelho anuncia uma transferência real de cabeça, de reino e de destino.
Pela fé, deixamos a antiga humanidade e somos enxertados na nova. Isso muda a maneira como encaramos o pecado, o sofrimento, a morte e o futuro. Você não está condenado a repetir a velha história. Em Cristo, uma nova história começou.
Quando o pecado parecer forte, lembre-se: a graça é mais forte.
Quando a culpa acusar, lembre-se: a condenação ficou para trás.
Quando a morte assustar, lembre-se: o último reino não é dela.
Viva como quem foi transferido de reino. Obedeça não para ser aceito, mas porque já foi aceito. Lute contra o pecado não como escravo do medo, mas como cidadão do reino da graça. Em Cristo, Deus não apenas restaurou o que foi perdido — Ele superabundou em graça.
Oração
Senhor Deus, agradecemos porque, em Cristo, não estamos mais sob o reinado do pecado e da morte. Dá-nos fé para viver sob o reinado da graça, firmes na justiça que conduz à vida eterna. Que nossa vida reflita a nova humanidade à qual pertencemos. Em nome de Jesus, amém.
