Fome quando ainda há pão - Amós 8.11-12

01/02/2026

Sermão: n° 3.134

Por: Pr. Reginaldo Cresencio,

Pregado na manhã de domingo, 01 de fevereiro de 2026,

na Igreja Batista Raízes, São Carlos - SP.

Texto base: Amós 8.11–12

¹¹ "Estão chegando os dias", declara o SENHOR, o Soberano, "em que enviarei fome a toda esta terra; não fome de comida nem sede de água, mas fome e sede de ouvir as palavras do SENHOR.

¹² Os homens vaguearão de um mar a outro, do Norte ao Oriente, buscando a palavra do SENHOR, mas não a encontrarão.

Introdução

Quando pensamos em juízo divino, quase sempre imaginamos algo visível, abrupto, traumático. Guerras, perdas, crises, colapsos. Mas o juízo anunciado por Amós não derruba cidades. Não fecha templos. Não interrompe o funcionamento da religião.

É um juízo silencioso. As mesas continuam postas. Os cultos continuam acontecendo. Os cânticos continuam sendo entoados.

Mas Deus diz: "Envirei fome."

E imediatamente esclarece: "Não fome de pão… mas de ouvir a minha Palavra."

Este é um dos textos mais assustadores das Escrituras, porque descreve um povo religiosamente ativo, mas espiritualmente desnutrido.

1. O contexto: quando Deus se cansa de falar

Amós profetiza em um período de prosperidade nacional.

Israel vivia estabilidade econômica, segurança política e intensa atividade religiosa. Havia:

  • sacrifícios frequentes,
  • festas religiosas bem-organizadas,
  • culto regular.

Mas algo estava profundamente errado.

Nos capítulos anteriores, Deus já havia dito:

"Aborreço as vossas festas… não tenho prazer nos vossos cultos."

O problema não era ausência de religião, mas religião sem arrependimento, culto sem obediência, rito sem escuta.

A fome espiritual não surge quando Deus nunca falou. Ela surge quando Deus falou repetidas vezes, e foi ignorado.

O juízo aqui não é Deus se revelando menos. É Deus se retirando em silêncio.

2. Não fome de pão – o perigo da falsa saciedade

Deus faz questão de dizer o que essa fome não é:

  • Não é falta de pão.
  • Não é falta de água.
  • Não é escassez material.

Isso significa que o povo continuaria bem alimentado externamente.

E aqui está o perigo do texto, é possível ter tudo o que sustenta o corpo e nada que sustente a alma.

Uma igreja pode ter boa estrutura, boa liturgia, boa música, boa teologia, e ainda assim estar espiritualmente faminta.

A fome descrita por Amós não dói no estômago. Ela corrói lentamente o coração.

3. A tragédia maior: buscar a Palavra e não encontrá-la

O verso 12 aprofunda o juízo:

"Correrão por toda parte, buscando a palavra do Senhor, e não a acharão."

Há algo profundamente trágico aqui. Chegará o dia em que o povo desejará ouvir, mas não ouvirá. Buscará direção, mas encontrará silêncio.

O problema não é apenas não ouvir Deus. É sentir falta de ouvi-Lo quando já é tarde.

Isso nos ensina algo sério, não devemos tratar como comum o fato de Deus ainda falar conosco.

Enquanto a Palavra ainda nos confronta, consola, corrige e expõe, há graça em ação.

4. A Ceia do Senhor como resposta graciosa ao juízo anunciado

É aqui que o texto de Amós encontra seu cumprimento e sua cura em Cristo.

Se em Amós Deus anuncia: "Virá fome de ouvir a Palavra", na Ceia, Deus declara: "Eu mesmo me fiz alimento."

A Ceia do Senhor é a Palavra encarnada, tocável, visível, partilhada.

No pão, Deus fala sem palavras: "Meu corpo foi entregue."

No cálice, Deus proclama sem discurso: "Meu sangue foi derramado."

Enquanto ainda há Ceia, Deus ainda está falando à sua igreja.

A Ceia é o oposto da fome anunciada por Amós. Ela é graça onde haveria silêncio.

5. A Ceia não é sinal de força, mas de necessidade

Este texto nos impede de tratar a Ceia como recompensa espiritual.

A Ceia não é para os que "estão bem". É para os que sabem que não sobreviveriam sem Cristo.

Quem não sente fome espiritual, banaliza o pão. Quem não reconhece sua dependência, esvazia o cálice.

A Ceia existe porque ainda somos frágeis, ainda somos tentados, ainda somos carentes da Palavra viva de Deus.

Ela é sustento no caminho, não troféu no fim.

Conclusão

Ainda há mesa, ainda há voz

Amós fala de um dia em que o povo buscaria a Palavra e não a encontraria.

Mas hoje, irmãos, a mesa ainda está posta. Isso é misericórdia.

Enquanto o pão é partido, enquanto o cálice é oferecido, enquanto Cristo é anunciado, Deus ainda está dizendo: "Hoje, se ouvirdes a minha voz…"

A maior tragédia não é a fome material. É perder o apetite por Deus enquanto ainda há alimento.

Antes de participarmos da Ceia do Senhor, não nos aproximemos como quem cumpre um rito.

Aproximemo-nos como quem reconhece: "Senhor, se Tu não nos alimentares, pereceremos."

Porque enquanto ainda há fome, a graça ainda opera.

E enquanto ainda há mesa, Deus ainda fala.

Oração de Encerramento

Senhor nosso Deus e Pai, colocamo-nos agora diante de Ti em silêncio e reverência, conscientes de que, se não fores Tu a nos alimentar, a nossa alma perece, ainda que haja pão sobre a mesa.

Reconhecemos diante de Ti que, muitas vezes, temos abundância de palavras, mas escassez de escuta; temos ritos, mas perdemos o assombro; temos mesa, mas nos esquecemos da fome.

Perdoa-nos, Senhor, por nos acostumarmos com a Tua voz, por tratarmos como comum aquilo que é santo, por transformarmos a graça em rotina e a comunhão em hábito vazio.

Hoje Te agradecemos porque a mesa ainda está posta, porque o pão ainda é partido, porque o cálice ainda é oferecido e porque, apesar de nós, Tu ainda falas à Tua igreja.

Recebe a nossa confissão não como mérito, mas como dependência; não como força, mas como necessidade. Alimenta-nos com Cristo, sustenta-nos com a Tua Palavra, renova em nós a fome por Ti e preserva-nos do juízo silencioso de uma religião sem presença.

Que saiamos deste lugar não apenas saciados, mas despertos; não apenas consolados, mas atentos à Tua voz. E que, enquanto houver fome em nosso coração, a Tua graça continue operando em nós.

Oramos assim em nome de Jesus Cristo, o pão vivo que desceu do céu. Amém.