Justificados pela fé - Rm 4.1-25

18/01/2026

Sermão: n° 3.132

Por: Pr. Reginaldo Cresencio,

Pregado na noite de domingo, 18 de janeiro de 2026,

na Igreja Batista Raízes, São Carlos - SP.

Texto base: Romanos 4.1–25

"Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça." (Romanos 4.3)

Resumo do capítulo anterior

Antes de chegarmos a Romanos 4, é essencial relembrarmos o caminho que o apóstolo Paulo nos fez percorrer até aqui. No capítulo 3, Paulo nos conduziu ao ponto mais baixo da condição humana diante de Deus, para então nos preparar para a maior notícia do evangelho.

Em Romanos 3.1–20, Paulo demonstrou, de maneira irrefutável, que toda a humanidade está culpada diante de Deus. Judeus e gentios, religiosos e irreligiosos, moralistas e imorais; todos estão debaixo do pecado. Não há justo, não há quem busque a Deus, não há quem faça o bem. A lei, que muitos imaginavam ser um caminho de salvação, mostrou-se incapaz de justificar; sua função foi revelar o pecado e calar toda boca humana diante do tribunal divino.

Mas Paulo não nos deixou no desespero. A partir do versículo 21, ele anunciou a virada gloriosa do evangelho: "Mas agora, se manifestou a justiça de Deus". Uma justiça que não vem das obras, mas é recebida mediante a fé em Jesus Cristo. Toda vanglória humana foi excluída, e ficou claro que a salvação é inteiramente obra da graça.

O capítulo 3 termina afirmando que ninguém pode se gloriar diante de Deus. Toda vanglória humana foi excluída. A salvação é inteiramente obra da graça, recebida unicamente pela fé. O apóstolo Paulo também reforça isso aos efésios conforme está registrado em Efésios 2:8,9:

"⁸ Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; ⁹ não por obras, para que ninguém se glorie.

É exatamente nesse ponto que Romanos 4 entra em cena. Depois de mostrar como Deus salva, Paulo agora prova que sempre foi assim. Ele nos leva de volta à história de Abraão para mostrar que a justificação pela fé não é uma novidade cristã, mas o método eterno de Deus. O que foi revelado em Cristo já estava anunciado na promessa.

Se Romanos 3 nos ensinou que ninguém pode pagar sua dívida diante de Deus, Romanos 4 nos ensinará que Deus sempre salvou aqueles que confiaram na Sua Palavra, mesmo quando o cumprimento ainda estava no futuro.

Assim, o capítulo que agora estudaremos não é um novo assunto, mas a confirmação pastoral e histórica de uma verdade libertadora: desde o início, Deus salva pecadores pela fé; fé na Palavra que Ele sempre cumpre.

E aqui surge uma pergunta pastoral inevitável: o que é, afinal, essa fé pela qual Deus sempre salvou o seu povo? Se ela não é obra, se não é mérito, se não é esforço religioso, como podemos compreendê-la de forma simples, concreta e aplicável à vida real?

Para responder a essa pergunta, Paulo nos levará à experiência de Abraão. E, para nos ajudar a visualizar essa fé que descansa na Palavra de Deus, podemos recorrer a uma imagem profundamente enraizada na memória coletiva de muitos de vocês.

Durante muito tempo, especialmente em cidades pequenas, era comum que uma pessoa entrasse no comércio, na padaria ou no armazém do bairro e fizesse uma compra fiada. O comerciante não exigia pagamento imediato. O valor era anotado numa caderneta simples, com o nome do comprador, a data e a quantia. Não havia contrato assinado, nem garantias formais. O que sustentava aquela anotação era algo muito mais forte; a palavra dada.

A reputação do comprador era seu crédito. A confiança do comerciante não estava no dinheiro presente, mas na certeza de que, no tempo certo, o pagamento seria feito. Aquela caderneta era um registro visível de uma confiança invisível.

Paulo nos ensina em Romanos 4 que a fé funciona exatamente assim. Fé não é sentimento vago, nem otimismo religioso. Fé é confiar plenamente na Palavra de Deus antes do cumprimento, durante a espera e depois da realização. No Antigo Testamento, a fé era a certeza de que o Messias viria. No Novo Testamento, é a convicção de que Ele veio, morreu, ressuscitou. E hoje, é a esperança viva de que Ele voltará.

Abraão viveu dessa fé. Ele não tinha o cumprimento imediato da promessa, mas confiou tanto na Palavra de Deus que sua confiança foi registrada, não numa caderneta humana, mas no tribunal do céu. Deus anotou em Seu livro; justo. Não porque Abraão pagou algo, mas porque confiou plenamente naquele que sempre cumpre o que promete.

Romanos 4 nos chama a abandonar uma fé baseada no que vemos e a abraçar uma fé fundamentada na fidelidade de Deus. É um convite pastoral profundo; pare de tentar pagar sua dívida espiritual e confie naquele que já assumiu o compromisso por você.

1. Abraão não foi justificado por obras (4.1–8)

Paulo inicia com uma pergunta cuidadosamente formulada; se Abraão tivesse sido justificado por obras, ele teria motivo de glória, mas nunca diante de Deus. A própria Escritura responde à questão, citando Gênesis 15.6: Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça.

O verbo imputar (logízomai) é central aqui. Ele não descreve uma transformação moral imediata, mas um ato judicial de Deus, no qual a justiça que não pertence ao pecador lhe é creditada por pura graça. Paulo estabelece então um princípio fundamental: ao que trabalha, o salário é devido; ao que crê, a justiça é concedida gratuitamente.

Deus não remunera esforço religioso; Ele declara justo o ímpio que confia nEle. Para reforçar esse ensino, nos versículos 7 e 8, Paulo convoca Davi como segunda testemunha, citando o Salmo 32.1-2. Davi celebra a bem-aventurança daqueles cujos pecados são perdoados e a quem o Senhor não imputa culpa.

Aqui se revela o coração do evangelho; uma dupla imputação graciosa, nossos pecados são lançados sobre Cristo, e a justiça de Cristo é creditada a nós.

Muitos crentes vivem cansados como se estivessem devendo algo a Deus, tentam pagar uma dívida que Cristo já quitou. Oram, servem e se sacrificam não por gratidão, mas por medo. Romanos 4 nos liberta desse fardo, quem crê descansa, porque confia na Palavra de um Deus que sempre honra Seus compromissos. A fé verdadeira não se manifesta em exaustão espiritual, mas em descanso humilde na obra consumada de Jesus.

2. A fé que justifica precede os ritos religiosos (4.9–12)

Paulo avança e pergunta se essa bem-aventurança é exclusiva dos circuncidados. A resposta está na própria ordem da revelação bíblica: Abraão foi declarado justo em Gênesis 15; a circuncisão só foi instituída em Gênesis 17. Portanto, a fé precede o rito; primeiro veio a confiança; depois, o sinal.

A circuncisão não gerou a justiça; ela confirmou uma realidade já existente. Foi o selo visível de uma fé invisível. Assim, Abraão torna-se pai não apenas dos judeus segundo a carne, mas de todos os que creem, sejam judeus ou gentios.

Paulo estabelece um princípio que atravessa toda a história da redenção: os sinais externos confirmam a fé, mas jamais a produzem.

Deus nunca salvou pessoas por ritos, mas por fé. Os sinais são importantes, mas sempre apontam para algo maior do que eles mesmos.

Batismo, membresia e participação na vida da igreja são bênçãos preciosas, mas não substituem a fé viva, são como recibos; importantes, mas não substituem a confiança. O que salva não é o sinal externo, mas a fé viva no Deus que promete e cumpre. A pergunta decisiva não é se passamos pelos ritos, mas se fomos alcançados pela graça.

3. A promessa não vem pela Lei, mas pela fé (4.13–17)

Paulo mostra que a promessa feita a Abraão não poderia ter vindo por meio da Lei, pois a Lei foi dada séculos depois. Se a herança dependesse da obediência legal, a fé perderia seu sentido e a promessa seria anulada. A Lei revela o pecado e expõe a dívida; ela nunca foi o meio de pagamento.

Por isso, a promessa vem pela fé, para que seja segundo a graça. Deus estruturou a salvação assim para que ela fosse segura, firme e acessível a todos os que creem. A segurança não está na constância humana, mas na fidelidade divina.

Abraão creu no Deus que dá vida aos mortos e chama à existência as coisas que não existem. Sua fé estava ancorada não em possibilidades humanas, mas no poder soberano de Deus. Ele acreditou que a Palavra de Deus tinha mais peso do que a realidade visível.

Quando baseamos nossa fé na Lei ou em nosso desempenho espiritual, vivemos inseguros. Quando confiamos na promessa graciosa de Deus, encontramos descanso e esperança. Fé é confiar que Deus cumprirá o que prometeu, mesmo quando o presente parece contradizer o futuro.

4. A natureza da fé salvadora (4.18–22)

Paulo descreve com profundidade a fé de Abraão; contra a esperança, ele creu em esperança. Abraão não negou a realidade de seu corpo envelhecido nem da esterilidade de Sara, mas escolheu confiar no caráter de Deus.

A fé salvadora não ignora as circunstâncias; ela se recusa a permitir que as circunstâncias tenham a palavra final. Abraão foi fortalecido na fé ao dar glória a Deus, plenamente convicto de que Ele era poderoso para cumprir o que prometera.

Essa fé perseverante, que se apega à promessa apesar das evidências contrárias, foi imputada para justiça.

Fé não é ausência de dúvidas momentâneas, mas permanência confiante no Deus fiel. Muitas vezes, é o ambiente onde a fé amadurece. Mesmo em meio à fraqueza, o crente pode glorificar a Deus descansando em Suas promessas.

5. A fé que justifica hoje (4.23–25)

Paulo conclui aplicando essa doutrina à igreja. As palavras não foram escritas apenas por causa de Abraão, mas também por nós. Somos justificados quando cremos naquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos.

Cristo foi entregue por causa das nossas transgressões; a cruz satisfaz plenamente a justiça divina, e ele ressuscitou para a nossa justificação, confirmando publicamente o veredicto de Deus; justo!

A ressurreição é a declaração celestial de que a obra foi aceita e a dívida foi paga.

Nossa fé não repousa em sentimentos, méritos ou obras, mas em um Cristo vivo. A justificação não é uma esperança frágil, mas uma certeza selada pela ressurreição.

A mesma Palavra que prometeu a vinda do Messias, cumpriu-se na cruz e na ressurreição. Essa mesma Palavra promete que Ele voltará. Fé é viver hoje confiando que Deus cumprirá amanhã tudo o que já escreveu em Sua promessa.

Conclusão

Romanos 4 afirma com clareza que a salvação sempre foi pela fé, sempre foi pela graça e sempre teve Cristo como centro. Abraão não foi salvo por sua força, mas por confiar em um Deus fiel.

O mesmo convite ecoa hoje; cesse de trabalhar para ser aceito por Deus e descanse na justiça perfeita que Ele concede gratuitamente em Cristo. A fé que justifica é a fé que descansa. A fé cristã é viver todos os dias confiando no crédito da graça divina. Não pagamos a dívida; confiamos naquele que a assumiu. Não exigimos o cumprimento imediato; descansamos na Palavra de um Deus que nunca falha.

Oração

Senhor nosso Deus, agradecemos porque a nossa salvação não depende de nossas obras, mas da Tua graça soberana. Ensina-nos a crer como Abraão creu, a confiar quando tudo parece impossível e a descansar na justiça perfeita de Cristo. Fortalece nossa fé, sustenta nossa esperança e glorifica o Teu nome em nossas vidas. Em nome de Jesus, amém.