Liderança Eclesiástica

6 Marcas de uma igreja saudável:
Liderança eclesiástica bíblica
Por: Bianca G. Campigotto
Falar de liderança eclesiástica é um desafio. Em muitas igrejas, esse tema se tornou um tabu, por vezes até indigesto. No entanto, a verdade é simples e incontornável: se queremos uma igreja saudável, precisamos de líderes saudáveis.
Se desejamos uma igreja que ora, precisamos de líderes que sejam os primeiros a dobrar os joelhos.
Se queremos uma igreja comprometida com a Palavra, precisamos de líderes comprometidos com a verdade.
A vida do líder inevitavelmente reflete-se na vida da igreja. A liderança nunca é apenas o que se ensina, mas, sobretudo, o que se vive.
Esse princípio é claramente demonstrado no discurso de despedida do apóstolo Paulo aos presbíteros da igreja de Éfeso:
¹⁷ De Mileto, Paulo mandou chamar os presbíteros da igreja de Éfeso.
¹⁸ Quando chegaram, ele lhes disse: "Vocês sabem como vivi todo o tempo em que estive com vocês, desde o primeiro dia em que cheguei à província da Ásia.
¹⁹ Servi ao Senhor com toda a humildade e com lágrimas, sendo severamente provado pelas conspirações dos judeus.
²⁰ Vocês sabem que não deixei de pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo publicamente e de casa em casa.
²¹ Testifiquei, tanto a judeus como a gregos, que eles precisam converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus.
²² "Agora, compelido pelo Espírito, estou indo para Jerusalém, sem saber o que me acontecerá ali,
²³ senão que, em todas as cidades, o Espírito Santo me avisa que prisões e sofrimentos me esperam.
²⁴ Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus.
Atos 20:17-24
²⁷ Pois não deixei de proclamar-lhes toda a vontade de Deus.
²⁸ Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue.
Atos 20:27,28
Nesse texto, Paulo não apenas lhes transmite instruções doutrinárias, mas apresenta sua própria vida como referência. Ele relembra como viveu entre eles, estabelecendo princípios de uma liderança saudável.
Ao afirmar: "Vocês sabem como vivi" (At 20:18), Paulo deixa claro que a liderança bíblica é inseparável de um testemunho visível e coerente. Ele não apenas pregou todo o conselho de Deus, mas viveu de modo consistente com aquilo que anunciava.
Princípios de uma liderança saudável:
1. Relação com o próprio Deus: serviço e humildade
"Servi ao Senhor com toda a humildade e com lágrimas, sendo severamente
provado pelas conspirações dos judeus."
(Atos 20:19)
Serviço é a marca fundamental de uma liderança saudável.
A pergunta precisa ser feita com honestidade: a quem o
presbítero serve?
A resposta parece óbvia, mas nem sempre é verdadeira.
Há líderes que, como Absalão, constroem monumentos para si mesmos, edificando o próprio nome. Outros não servem a Deus, mas à denominação — onde a palavra final não são as Escrituras, mas homens.
Quem serve a Deus não busca aplausos nem reconhecimento. Não se rende à aprovação humana e não se paralisa diante de críticas.
Por isso, o verdadeiro serviço está intrinsecamente ligado à humildade.
Servir a Deus implica ser provado. Quem não negocia princípios e valores frequentemente terá de pregar com lágrimas no rosto. Por isso, não há espaço para peito estufado, arrogância ou soberba na liderança cristã.
Um perigo comum é a seletividade ministerial: o líder que só deseja grandes púlpitos, grandes multidões e grandes auditórios, por se considerar "grande demais" para cuidar de poucas e pequenas ovelhas. Isso não é serviço cristão, é vaidade disfarçada.
A liderança saudável não se rende ao gosto da freguesia para ser bem-vista. Não se deixa seduzir pelo status quo da sociedade.
Deus não chama líderes para serem profetas da conveniência, mas arautos do Rei dos reis - Essa é a base de uma liderança eclesiástica saudável.
2. Relação do líder com a própria vida
"Vocês sabem como vivi todo o tempo em que estive com vocês…"
(Atos 20:18)
O líder não está acima da igreja, mas entre os liderados. A vida do líder é a vida da sua liderança.
A melhor propaganda da reputação de um líder é uma vida vivida sem hipocrisia, visível àqueles que ele conduz.
O que o líder é em secreto, cedo ou tarde se reflete em público. Muitas vezes, a ovelha mais difícil de lidar é aquela que ele vê no espelho. O líder que não cuida de si mesmo está inapto a cuidar dos outros.
A sociedade valoriza performance; Deus vê o caráter e a motivação. Um líder pode ser eloquente, carismático e admirado, mas se o coração disser o contrário, Deus rejeita.
Alerta: Os pecados dos líderes não têm peso diferente diante de Deus – presbíteros não são semideuses, continuam sendo homens pecadores, mas são mais danosos ao rebanho. Pois eles podem transformar palavras verdadeiras em discursos hipócritas.
Por isso, o líder precisa cuidar de si mesmo antes de cuidar dos outros. Sua própria vida de santidade deve ser sua maior preocupação.
3. Relação do líder com a Palavra de Deus
(Atos 20:20–21, 24, 27)
²⁰ Vocês sabem que não deixei de pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo publicamente e de casa em casa.
²¹ Testifiquei, tanto a judeus como a gregos, que eles precisam converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus.
²⁴ Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus.
²⁷ Pois não deixei de proclamar-lhes toda a vontade de Deus.
Paulo utiliza diferentes verbos — pregar, ensinar, testificar, proclamar — que, embora distintos em forma e nuance, convergem para a mesma ideia: anunciar fielmente a Palavra de Deus. Isso revela sua íntima relação com as Escrituras e seu compromisso com o ensino completo da verdade.
O bom líder é um amante da Palavra. O estudo, a compreensão e a pregação das Escrituras não são apenas parte do seu ministério — são o sentido da sua vida.
Nenhum de nós jamais esgotará o conhecimento de Deus, pois Ele é infinito. Ainda assim, é vergonhoso quando membros da igreja precisam constantemente corrigir teologicamente o seu líder.
O pastor saudável é um estudante assíduo da Palavra. Não é aquele que se formou aos vinte anos e, após quarenta anos de ministério, continua com o mesmo conhecimento raso da juventude.
Quem não se aprofunda oferece alimento superficial, incapaz de nutrir e amadurecer o rebanho.
4. Vocação: chamado e não conveniência
²⁴ Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus.
²⁸ Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue.
(Atos 20:24, 28)
Há líderes que ocupam cargos por conveniência ou herança familiar. Alguns são pastores ou presbíteros porque seus pais foram; outros desejam a posição pelo status ou pelo suposto poder que imaginam possuir.
Mas vocação não se herda — se recebe de Deus.
Efésios 4:11–14 nos ensina que Cristo concede dons à igreja para edificação do corpo, maturidade espiritual e proteção contra todo vento de doutrina. O líder não é um voluntário eventual; ele é chamado.
Hernandes Dias Lopes define bem o chamado:
"O chamado ministerial são algemas invisíveis."
Jeremias expressa essa realidade com clareza:
"Se eu disser: 'Não falarei mais em seu nome', é como fogo ardendo em meu coração, um fogo dentro de mim. Estou exausto tentando contê-lo; já não posso mais!
(Jeremias 20:9)
Vocação não é quando todas as portas se fecham e você interpreta isso como um sinal. Vocação é quando todas as portas estão abertas, mas aquele que é chamado só consegue desejar uma: o pastoreio.
O chamado é uma convicção interna confirmada ext ernamente pelo testemunho de vida diante da igreja.
5. Autoridade e não autoritarismo
"Todos os animais são iguais, mas alguns são mais
iguais do que os outros."
(George Orwell)
O pastor não é o senhor da igreja. Cristo é o Senhor.
O líder exerce autoridade delegada, sob a autoridade de Cristo, mas não é dono
do rebanho.
Independentemente do modelo denominacional, a Escritura deixa claro que não há espaço para liderança absoluta e personalista. A liderança deve ser plural, e as decisões devem ser tomadas de forma responsável e bíblica, com participação da igreja quando necessário.
Mateus 18:15–17 demonstra que a disciplina eclesiástica não é autoritária, mas comunitária, guiada pela Palavra.
Gálatas 1:6–9 revela que a igreja tem responsabilidade sobre o que é ensinado. Não é porque o pastor lidera que tudo deve ser aceito sem exame. Aceitar erro doutrinário por submissão cega é culpa compartilhada.
Atenção! Congregacionalismo não é sinônimo de democracia pura. Nem sempre a maioria decide. A autoridade final não é o voto, mas a Escritura.
A Declaração de Cambridge (1648) resume bem:
"O governo da igreja é uma combinação de governos ... No que diz respeito a Cristo, o Rei e Cabeça da igreja, ao Soberano Poder que reside nEle e é exercido por Ele, o governo da igreja é uma monarquia. No que diz respeito ao corpo, á irmandade da igreja, e ao poder de Cristo outorgado a eles, o governo da igreja parece uma democracia. No que concerne aos presbíteros e ao poder confiando a eles, o governo da igreja é uma aristocracia."
Isso nos ensina que Deus governa sua igreja por meio de homens capacitados, em equilíbrio entre autoridade, responsabilidade e submissão à Palavra.
Aplicações
Liderança bíblica e membresia saudável
• O papel da igreja na avaliação da liderança
A membresia da igreja não é passiva. Ser membro não é apenas frequentar cultos, mas assumir responsabilidade espiritual pelo corpo. Por isso, cabe à igreja verificar aqueles que são verdadeiramente pastores, e não lobos, à luz das qualificações bíblicas.
(1 Timóteo 3:1–7) – lista de pré-requisitos pastoral.
Uma membresia saudável não escolhe líderes por carisma, popularidade ou afinidade pessoal, mas examina vida, doutrina e testemunho. A confiança na liderança não é automática; ela é construída e confirmada visível e continuamente no contexto da vida da igreja.
Onde não há membresia consciente, qualquer liderança se torna vulnerável — seja ao abuso, seja à negligência.
• Membresia saudável confia, submete-se e honra
Uma vez confirmado o chamado, a membresia é chamada a confiar, submeter-se e honrar.
¹⁷ Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.
(Hebreus 13:17)
Aqui cabe a autoavaliação:
Você é um membro saudável, que contribui para a alegria do seu pastor?
Ou alguém que, pela rebeldia, indiferença ou espírito crítico constante, se torna um peso no cuidado pastoral?
A submissão bíblica não é cega nem acrítica, mas consciente e responsável. O membro saudável se submete não porque o líder é perfeito, mas porque reconhece que Deus governa sua igreja por meio de homens chamados, que um dia prestarão contas.
¹⁷ Os presbíteros que lideram bem a igreja são dignos de dupla honra, especialmente aqueles cujo trabalho é a pregação e o ensino.
(1 Timóteo 5:17)
Honrar a liderança é uma marca de membresia madura.
Honre o seu pastor: sendo obediente, ensinável, comprometido com o Reino e cooperador na obra. Demonstre gratidão não apenas com palavras, mas com gestos e atitudes.
Conclusão:
Uma membresia saudável é, inevitavelmente, reflexo de uma liderança saudável, pois a vida da igreja é, em grande medida, o espelho da vida de seus líderes.
Líderes que vivem o evangelho produzem igrejas que vivem o evangelho. Líderes que amam a Palavra formam membros que amam a Palavra. Líderes que caminham em santidade conduzem o povo a uma vida de santidade. Da mesma forma, liderança negligente, superficial ou infiel à verdade inevitavelmente resultará em uma membresia frágil, confusa e vulnerável.
Entretanto, essa relação não isenta a membresia de sua responsabilidade. Deus governa sua igreja por meio de líderes chamados, mas também responsabiliza os membros por discernir, submeter-se, cooperar e honrar aqueles que Ele estabeleceu. Uma igreja saudável não é construída apenas por bons pastores, mas por um povo regenerado que entende seu lugar no corpo, ama a igreja e vive para a glória de Deus.
Assim, liderança bíblica e membresia saudável não competem entre si — caminham juntas. Onde essa ordem é respeitada, Cristo é honrado, a igreja é edificada e o Reino de Deus é manifestado de forma visível e fiel neste mundo.
Perguntas:
- A Plataforma de Cambridge de 1648 (frequentemente referida como Declaração de Cambridge) foi um documento fundamental do puritanismo colonial, estabelecendo a estrutura de governo para as igrejas congregacionais na Nova Inglaterra (Estados Unidos). Escrita por ministros puritanos, serviu como uma "constituição religiosa" para a colônia da Baía de Massachusetts até 1780.
- Requisitos pastorais:
¹ Esta afirmação é digna de confiança: se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função.
² É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar;
³ não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro.
⁴ Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade.
⁵ Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?
⁶ Não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o diabo.
⁷ Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do diabo.
1 Timóteo 3:1-7
Bibliografia - Referências:
Livros:
- Nove marcas de uma igreja saudável – Mark Dever
BÍBLIA SAGRADA
Bíblia Sagrada. Almeida Revista e Atualizada (ARA) / Almeida Revista e Corrigida (ARC). Sociedade Bíblica do Brasil.
Textos utilizados:
Antigo Testamento
- Jeremias 20:9
Novo Testamento
- Mateus 18:15–17
- Atos 20:17–24
- Atos 20:27–28
- Atos 20:33–35
- Gálatas 1:6–9
- Efésios 4:11–14
- 1 Timóteo 3:1–7
- 1 Timóteo 5:17
- Hebreus 13:17
Sermões:
- LIDERANÇA E EXEMPLO - Hernandes Dias Lopes
https://www.youtube.com/watch?v=sIdWUpRUgis&t=2519s
Estudos:
- LIVRO - DISCIPULADO - BONHOEFFER CAPÍTULO 9 - Os mensageiros – Bianca Campigotto
OpenAI. ChatGPT – Assistente de escrita e revisão teológica. Modelo GPT-4o. 2025. Disponível em: https://chat.openai.com. Acesso em: 05/02/2026.
