Mortos para o pecado, vivos para Deus - Rm 6.1-14

08/02/2026

Sermão: n° 3.136

Por: Pr. Reginaldo Cresencio,

Pregado na manhã de domingo, 08 de fevereiro de 2026,

na Igreja Batista Raízes, São Carlos - SP.

Texto base: Romanos 6.1–14

Introdução

Paulo acabou de dizer algo que enche o coração de esperança: "onde aumentou o pecado, transbordou a graça" (Rm 5.20). Mas ele conhece o coração humano. Ele sabe que uma mente carnal pode ouvir isso e concluir: "Então vamos pecar mais, para a graça aparecer mais".

Por isso ele levanta a pergunta:

"Que diremos então? Continuaremos pecando para que a graça aumente?" (Rm 6.1)

A pergunta não é ingênua; é perigosa. Ela revela uma distorção do evangelho. É como se alguém dissesse: "Se o médico cura, então vou me ferir de propósito para ver o remédio". Ou: "Se Deus perdoa, então vou pecar com tranquilidade". Isso não é fé; é presunção. Não é evangelho; é perversão da graça.

Paulo responde com a força de um trovão:

"De maneira nenhuma! Nós, os que morremos para o pecado, como podemos continuar vivendo nele?" (Rm 6.2)

A graça não é uma licença para a desobediência. A graça é a libertação de um senhor antigo e a entrada em um novo senhorio. A justificação não é apenas uma declaração que muda nosso papel no tribunal; ela inaugura uma nova vida, uma nova identidade e uma nova obediência.

1. O Evangelho Não Apenas Perdoa: Ele Rompe o Senhorio do Pecado (6.1–2)

Paulo não diz que o cristão nunca peca. Ele diz que o cristão não pode continuar vivendo no pecado, isto é, não pode permanecer sob seu domínio como antes.

A conversão não é apenas uma mudança de crenças; é uma mudança de reino. Em Romanos 5, Paulo já falou de dois reinados; o da morte e o da graça. Agora, em Romanos 6, ele aplica isso à vida cotidiana; se a graça reina, o pecado não pode continuar reinando sem contestação.

Morremos para o pecado significa que houve uma ruptura real. O pecado ainda tenta, ainda assedia, ainda insiste, mas já não possui o direito de governar. Um escravo pode continuar ouvindo ecos da voz do antigo senhor, mas ele foi libertado; ele não precisa obedecer.

Se você brinca com o pecado e chama isso de "graça", você está confundindo misericórdia com permissividade. A graça que salva é também a graça que santifica. Se Cristo nos tirou da morte, não faz sentido voltar ao túmulo e dizer; "Aqui é meu lar".

Examine honestamente o modo como você entende a graça.

Você a trata como poder libertador ou como desculpa silenciosa?

Sempre que você racionaliza o pecado dizendo que, "Deus entende", "Depois eu resolvo" ou "A graça cobre", você está trocando o evangelho pela presunção. A graça nunca nos pergunta se queremos continuar no pecado; ela nos arranca dele.

Aplicação Prática:

Quando surgir a tentação, não pergunte: "Até onde posso ir?"

Pergunte: "Isso condiz com alguém que morreu para o pecado?"

2. A União com Cristo: A Doutrina que Sustenta a Santidade (6.3–5)

Paulo responde à objeção mostrando a base de tudo:

"Ou vocês não sabem que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados em sua morte?" (Rm 6.3)

Aqui precisamos entender com cuidado que Paulo não está ensinando que o rito do batismo, por si só, salva. Ele está tratando do batismo como sinal visível da realidade invisível: pela fé, fomos unidos a Cristo.

A expressão "em Cristo" é uma das mais profundas do Novo Testamento. Ela significa pertencimento, união vital e identificação. Cristo não é apenas um exemplo externo; Ele é o Cabeça ao qual fomos ligados. O que aconteceu com Cristo, de modo representativo e eficaz, passa a definir a nossa história espiritual.

"Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova." (Rm 6.4)

Veja a lógica: morte → sepultamento → ressurreição → nova vida. Paulo não está pedindo esforço moral como primeira etapa; ele está anunciando uma nova realidade que produz uma nova conduta.

"Se assim fomos unidos a ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição." (Rm 6.5)

A santidade cristã começa com identidade. Muitos tentam vencer o pecado começando pela força de vontade. Paulo começa por outro lugar; pela união com Cristo. Você luta não para se tornar alguém; você luta porque já foi feito alguém em Cristo.

Pare de tentar viver a vida cristã como alguém isolado, desconectado de Cristo.

A santidade não flui do esforço solitário, mas da comunhão vital com o Salvador.

Muitos crentes vivem como se Cristo fosse apenas um exemplo distante. Paulo diz: você está unido a Ele. Sua morte foi sua morte. Sua vida é sua vida.

Aplicação Prática:

Comece o dia conscientemente lembrando sua união com Cristo:

"Senhor, hoje não vivo por mim mesmo; vivo unido a Ti."

3. O Velho Homem Foi Crucificado: Santificação Definitiva e Libertação (6.6–7)

Paulo faz aqui uma das declarações mais decisivas de toda a Epístola:

"Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que o corpo do pecado seja destruído e não sejamos mais escravos do pecado. Pois quem morreu, foi justificado do pecado." (Rm 6.6–7)

O "velho homem" não se refere a um hábito isolado, nem apenas a comportamentos pecaminosos específicos, mas à nossa identidade adâmica, àquilo que éramos em Adão: culpados, condenados e escravizados pelo pecado. Paulo afirma algo extraordinário: esse velho homem não está em processo de morte, ele foi crucificado com Cristo.

Aqui não estamos falando de santificação progressiva, mas de uma obra definitiva. Na cruz, Deus não apenas tratou com atos de pecado, mas com o pecador em sua velha condição. O objetivo, diz Paulo, é claro: "para que o corpo do pecado seja destruído", isto é, para que o pecado perca seu poder governante, seu domínio legal, sua autoridade como senhor.

E então Paulo acrescenta uma frase de peso jurídico e teológico:

"Pois quem morreu, foi justificado do pecado." (Rm 6.7)

A linguagem aqui é claramente forense. A morte encerra reivindicações legais. Um morto não pode mais ser processado, acusado ou punido. Paulo está dizendo que, em Cristo, houve uma morte real, com consequências legais reais, espirituais reais e eternas.

Aqui cabe uma ilustração muito esclarecedora.

Há um caso conhecido no direito norte-americano, citado frequentemente em livros e aulas de teologia e ética, de um homem condenado à morte na cadeira elétrica. Enquanto aguardava sua execução no corredor da morte, ele sofreu uma parada cardíaca grave. Seu coração cessou os batimentos por alguns minutos, e ele foi considerado clinicamente morto. De forma inesperada, porém, os médicos conseguiram reanimá-lo, e ele voltou à vida.

Diante disso, seu advogado entrou com um pedido judicial alegando que a sentença havia sido cumprida: o condenado que estava sob o cuidado do Estado já havia morrido. Portanto, submetê-lo novamente à execução seria uma dupla penalidade pelo mesmo crime, algo juridicamente inaceitável. Ainda que o tribunal não tenha aceitado plenamente o argumento, a lógica é profundamente instrutiva, a morte encerra a jurisdição da pena.

Paulo está dizendo exatamente isso em termos espirituais. Quando Cristo morreu, nós morremos com Ele. A pena foi executada. A sentença foi cumprida. O pecado já não tem mais direito legal de exigir punição nem de exercer domínio.

O pecado ainda tenta nos intimidar, ainda grita como se fosse senhor, ainda se apresenta como autoridade, mas ele é um usurpador. Seu direito foi cancelado na cruz. Sua jurisdição terminou quando o velho homem morreu com Cristo.

Quantos cristãos vivem como se ainda estivessem no corredor da morte espiritual, aguardando uma sentença que já foi cumprida? Quantos obedecem ao pecado por medo, quando Paulo diz que o vínculo legal foi rompido? O pecado pode tentar, mas já não pode condenar. Pode assediar, mas já não pode dominar.

Você não luta contra o pecado para morrer; você luta porque já morreu com Cristo. Você não resiste como alguém esperando libertação, mas como alguém que já foi libertado.

Essa verdade não elimina a batalha, mas muda completamente a maneira de lutar. Não lutamos como escravos tentando escapar, mas como filhos livres defendendo a liberdade que Cristo já conquistou.

À luz dessa verdade, permita-me fazer uma pergunta pastoral direta: por que você continua obedecendo a um senhor que já não tem mais autoridade sobre você?

Muitos crentes vivem como se ainda estivessem sob jurisdição do pecado, como se a sentença ainda estivesse pendente, como se a execução ainda estivesse por vir. Eles acordam todos os dias com medo da condenação, presos à culpa, dominados por lembranças do passado e paralisados pela acusação. Mas Paulo diz: "quem morreu, foi justificado do pecado".

Isso significa que, quando o pecado vier exigir obediência, você pode responder com fé: Você não tem mais direito sobre mim. Eu morri com Cristo.

Na prática, isso muda a maneira como você lida com a tentação:

  • Você não precisa negociar com o pecado.
  • Você não precisa dialogar com a culpa.
  • Você não precisa fugir como réu.
  • Você pode resistir como alguém livre, lembrando que a pena já foi cumprida.

Essa aplicação também muda a forma como você lida com quedas. Quando um cristão cai, o pecado tenta dizer: "Está vendo? Você ainda é meu." Mas o evangelho responde: "Não. Eu caí, mas não pertenço mais a você." O arrependimento do crente não nasce do medo da punição, mas do amor daquele que já foi perdoado.

Aplicação prática:

Quando a tentação vier esta semana, não comece pedindo força apenas. Comece declarando a verdade do evangelho em oração:

"Senhor, eu já morri com Cristo. Este pecado não é mais meu senhor. Ajuda-me a viver hoje como alguém que já foi libertado."

Viver a santidade não é tentar morrer todos os dias; é lembrar todos os dias que você já morreu, e que agora vive para Deus em Cristo Jesus.

4. Cristo Vive para Deus: E Nós Vivemos Nele (6.8–10)

"Ora, se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele." (Rm 6.8)

A ressurreição de Cristo é o fundamento da nossa esperança. Ela significa que o poder do pecado foi julgado e a morte foi derrotada.

"Sabemos que, tendo sido ressuscitado dos mortos, Cristo não pode morrer outra vez; a morte não tem mais domínio sobre ele." (Rm 6.9)

E então Paulo afirma:

"Porque morrendo, ele morreu para o pecado uma vez por todas; mas vivendo, vive para Deus." (Rm 6.10)

Isso é consolador, a obra é definitiva, não repetitiva. A morte de Cristo é "uma vez por todas". Não há mais dívida pendente, não há mais condenação restante, não há mais necessidade de completar o que Ele fez.

Não viva como alguém preso apenas ao passado da cruz, esquecendo-se do poder da ressurreição. Cristo não apenas morreu por você; Ele vive em você.

A vida cristã não é um luto permanente pela morte de Jesus, mas uma celebração obediente da Sua vida em nós.

Aplicação Prática:

Quando se sentir desanimado, cansado ou espiritualmente seco, declare pela fé:

"Cristo vive, e eu vivo nele."

5. O Mandamento que Nasce do Evangelho: Considerem-se (6.11)

"Da mesma forma, considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus." (Rm 6.11)

"Considerem-se" não é autoajuda; é fé. É levar em conta uma realidade objetiva. É alinhar o pensamento com a verdade do evangelho.

O cristão aprende a dizer:

  • "Eu não pertenço mais a esse pecado."
  • "Esse desejo não é meu senhor."
  • "Eu fui feito vivo para Deus em Cristo."

Muitos vivem pelo que sentem; Paulo chama a viver pelo que Deus declarou. Quando o coração grita "você é escravo", a fé responde: "Cristo me libertou".

Aplicações Práticas:

  • Pergunte-se com sinceridade: a quem você tem se oferecido diariamente?

O pecado reina quando entregamos nossos pensamentos, nossos olhos, nossa língua e nosso tempo sem vigilância. Deus reina quando nos oferecemos conscientemente a Ele.

* Faça um exame diário ao final do dia:

* Onde ofereci meus membros ao pecado?

* Onde os ofereci a Deus?

* E ore por um realinhamento santo.

6. A Batalha Diária: Não Permitam que o Pecado Reine (6.12–13)

Paulo agora entra no cotidiano:

"Portanto, não permitam que o pecado reine em seu corpo mortal, fazendo que vocês obedeçam aos seus desejos." (Rm 6.12)

Note: ele não diz "não deixem o pecado existir", mas "não deixem reinar". Isso mostra que santificação é conflito. A presença do pecado remanescente é real, mas seu reinado não é inevitável.

"Não ofereçam os membros do corpo de vocês ao pecado, como instrumentos de injustiça; antes, ofereçam-se a Deus…" (Rm 6.13)

A santificação tem um lado negativo e um positivo:

  • negar-se ao pecado,
  • entregar-se a Deus.

A palavra "instrumentos" lembra ferramentas e armas. Nossos membros podem ser usados para injustiça ou para justiça: olhos, língua, mãos, mente, tempo, corpo todo. A pergunta é: a quem você está oferecendo suas faculdades?

A santidade não é só dizer "não" ao pecado; é dizer "sim" a Deus. Muitas quedas acontecem porque tentamos apenas esvaziar o coração do pecado, mas não o enchemos com Deus.

Aplicação Prática

  • Cuidado para não tentar viver a santidade na força da culpa. A lei acusa, mas não capacita. A graça perdoa e transforma.
  • Se você luta contra o pecado apenas com medo, você logo se cansará. Mas se luta movido pela graça, encontrará perseverança.
  • Troque a pergunta "O que Deus vai fazer comigo se eu cair?" por

"Como posso honrar Aquele que já me amou?"

7. A Promessa que Sustenta: O Pecado Não os Dominará (6.14)

Paulo conclui com uma afirmação poderosa:

"Pois o pecado não os dominará, porque vocês não estão debaixo da lei, mas debaixo da graça." (Rm 6.14)

Aqui está o segredo da perseverança; o pecado não dominará porque você está sob um novo regime. Estar debaixo da lei como caminho de justiça produz culpa, medo e tentativas frustradas de auto-salvação. Estar debaixo da graça produz fé, gratidão, poder do Espírito e obediência filial.

Isso não significa ausência de mandamentos; significa uma nova relação com Deus. A lei não é escada para subir ao céu; Cristo já nos levou ao Pai. A obediência agora é resposta de amor, não esforço para merecer aceitação.

A promessa é real: o pecado não dominará. Pode guerrear, pode assediar, pode ferir, mas não dominará. A graça que justificou você também sustentará sua santificação até o fim.

Aplicações Práticas:

  • Acredite na promessa antes de ver os resultados.

Paulo não diz "talvez o pecado não domine", mas "não dominará".

Essa promessa sustenta o crente fraco, levanta o caído e encoraja o cansado. A graça não apenas começa a obra; ela a completará.

  • Quando se sentir dominado, não conclua: "Não há esperança."

Conclua: "Ainda estou em processo, mas a graça reina."

Conclusão

Romanos 6 nos chama a viver de modo coerente com nossa nova identidade:

  • Morremos com Cristo.
  • Fomos sepultados com Cristo.
  • Ressuscitamos para uma vida nova.
  • Agora nos oferecemos a Deus.

O evangelho não diz apenas: "Você está perdoado."

Ele diz: "Você foi libertado."

E diz ainda: "Viva como alguém que já saiu do túmulo."

Você está tratando o pecado como antigo senhor ou como inimigo derrotado?

Você está oferecendo seu corpo ao pecado ou a Deus?

Você está tentando vencer na força ou vivendo pela graça?

Hoje, o convite do texto é simples e profundo: considere-se morto para o pecado e vivo para Deus em Cristo Jesus.

Oração Final

Senhor Deus, nós Te adoramos porque, em Cristo, não apenas fomos perdoados, mas libertos. Perdoa-nos quando tratamos a graça como desculpa e não como poder.

Ensina-nos a viver unidos ao Teu Filho: mortos para o pecado, vivos para Ti. Dá-nos um coração que odeie o pecado e ame a santidade; dá-nos vigilância para não oferecer nossos membros à injustiça e disposição para nos oferecermos inteiramente a Ti.

Sustenta os cansados, levanta os caídos, fortalece os fracos e faz florescer uma obediência alegre, para a glória de Jesus. Amém.