Os Frutos da Justificação - Romanos 5.1-11

Por: Pr. Reginaldo Cresencio
Sermão: n° 3.133
Pregado na noite de domingo, 25 de janeiro de 2026,
na Igreja Batista Raízes, São Carlos - SP.
Texto base: Romanos 5.1–11
Introdução
No capítulo anterior, fomos conduzidos por Paulo ao coração da doutrina da justificação pela fé e aprendemos que Abraão foi declarado justo não por obras, ritos ou méritos pessoais, mas porque creu na Palavra de Deus. A fé foi apresentada como confiança plena no Deus que promete e cumpre; uma fé semelhante àquela confiança antiga registrada numa caderneta de mercearia, sustentada não por garantias visíveis, mas pela palavra empenhada.
Romanos 4 respondeu à grande pergunta: como um pecador pode ser aceito por Deus? A resposta foi clara; pela fé somente. Mas agora surge uma nova questão, igualmente necessária; o que acontece com aquele que foi justificado? Quais são os frutos dessa declaração graciosa? A vida cristã termina no perdão ou começa nele?
É exatamente aqui que Romanos 5 se encaixa com beleza e profundidade. Paulo passa do ato jurídico da justificação para os resultados relacionais e existenciais dessa justificação. Saímos do tribunal e somos conduzidos à comunhão. O Deus que nos declarou justos agora nos convida a viver reconciliados com Ele.
Romanos 5.1–11 é um dos textos mais consoladores de toda a Epístola. Aqui, Paulo não está discutindo como alcançar a salvação, mas descrevendo o que flui dela. A linguagem muda da culpa para a reconciliação, da condenação para a paz, da inimizade para o amor.
A justificação não é apenas uma mudança de status legal diante de Deus; ela inaugura uma nova realidade de relacionamento. O pecador, antes inimigo, agora vive em paz com Deus. Não se trata da paz de Deus, como sentimento subjetivo (Fp 4.7), mas da paz com Deus, uma realidade objetiva, histórica e eterna.
1. Paz com Deus
o fim definitivo da inimizade (5.1)
"Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo."
A paz aqui descrita não é emocional, mas relacional. Trata-se do fim da guerra entre Deus e o homem. Antes da justificação, éramos filhos da ira; agora, somos filhos do amor. O pecado havia produzido uma ruptura irreparável do ponto de vista humano, mas Cristo veio para restaurar a comunicação suspensa.
Essa paz significa que a ira de Deus não mais nos ameaça, porque fomos aceitos em Cristo. Não houve mudança em Deus; houve mudança na nossa situação diante dEle. A justiça foi satisfeita, a barreira foi removida, a reconciliação foi consumada.
Todas as religiões do mundo ensinam caminhos pelos quais o homem tenta se reconciliar com Deus. O evangelho faz o movimento oposto; anuncia que Deus, em Cristo, reconciliou o homem consigo mesmo. Não é fruto do esforço humano, mas do sacrifício do Filho.
Muitos cristãos vivem ansiosos porque tentam sentir paz antes de descansar na paz objetiva que Cristo conquistou. A verdadeira tranquilidade do coração nasce quando compreendemos que Deus já não está contra nós.
2. Acesso à graça; um novo lugar diante de Deus (5.2a)
"Por meio de quem obtivemos acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes."
A palavra grega prosagōgē (acesso) traz uma imagem rica. Ela descreve a introdução formal de alguém à presença da realeza. Não entramos sozinhos; somos apresentados por Cristo. Ele nos conduz à presença do Rei dos reis.
Warren Wiersbe observa que os judeus eram separados da presença de Deus pelo véu do templo, e os gentios pelo muro externo. Na cruz, Jesus rasgou o véu e derrubou o muro. Em Cristo, todos os que creem têm livre acesso a Deus.
William Barclay destaca que esse acesso significa não apenas entrada, mas permanência. Não visitamos a graça; estamos firmes nela. Quando as portas se abrem, não encontramos juízo ou condenação, mas misericórdia e favor imerecido.
Aprendemos aqui que a vida cristã não é uma sucessão de tentativas de voltar à presença de Deus. Em Cristo, já estamos nela. Isso gera segurança, ousadia santa e liberdade para servir.
3. Esperança da glória — o futuro que já começou (5.2b)
"E nos gloriamos na esperança da glória de Deus."
Quem foi justificado não teme o futuro. A morte já não o apavora. A glória futura torna-se sua expectativa mais elevada. A palavra "gloriamos" descreve um regozijo exultante, uma alegria triunfante, uma confiança firme inspirada pela certeza da reconciliação.
A justificação resolve o passado, transforma o presente e garante o futuro. A esperança cristã não é um desejo incerto, mas uma certeza fundamentada na fidelidade de Deus.
Em um mundo marcado pela insegurança, o crente vive com esperança sólida. O futuro não é ameaça; é promessa.
4. Alegria nas tribulações — sofrimento com propósito (5.3–5)
Paulo surpreende ao afirmar que também nos gloriamos nas tribulações. Ele não está exaltando a dor, nem promovendo uma espiritualidade masoquista ou estoica. Não nos alegramos por causa do sofrimento, mas apesar dele e por causa de seus frutos.
A palavra grega thlipsis (tribulação) significa pressão. Refere-se especialmente à oposição e perseguição de um mundo hostil. A vida cristã é marcada por pressões do mundo, do diabo e de nossas próprias fraquezas.
Essas tribulações produzem perseverança; a perseverança gera experiência; a experiência aprofunda a esperança. E essa esperança não decepciona, porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo.
A justificação não apenas nos prepara para o céu; ela nos equipa para viver vitoriosamente na terra.
O sofrimento do crente nunca é inútil. Deus o utiliza como instrumento pedagógico para amadurecer nossa fé e aprofundar nossa esperança.
5. Amor provado na cruz é a base da nossa segurança (5.6–8)
Paulo ancora toda essa esperança no amor histórico e objetivo de Deus; Cristo morreu por nós quando ainda éramos fracos, ímpios e pecadores. O amor de Deus não foi despertado por nossa melhora, mas demonstrado em nossa miséria.
A cruz é a prova definitiva de que Deus nos ama. Não há argumento mais forte contra a dúvida do coração do que o Cristo crucificado.
Quando o coração vacila, devemos olhar novamente para a cruz. Nossa segurança não está em nosso amor por Deus, mas no amor de Deus por nós.
6. Reconciliação consumada
salvos da ira para a alegria (5.9–11)
Se fomos justificados pelo sangue de Cristo, com muito mais certeza seremos salvos da ira. Aqueles que eram inimigos agora se alegram em Deus. A salvação culmina não apenas no perdão, mas na comunhão restaurada.
O evangelho não termina em livramento do juízo, mas em alegria na presença de Deus.
A vida cristã é marcada por alegria reverente. Não celebramos apenas o que Deus nos livrou, mas o Deus que nos reconciliou consigo mesmo.
Conclusão
Queridos irmãos, Romanos 5 nos convida a viver a partir de uma realidade já estabelecida, não a lutar para conquistá-la. A paz com Deus não é um objetivo distante; é um dom presente, assegurado pela obra consumada de Cristo. Se fomos justificados pela fé, então a guerra acabou. Não somos mais inimigos; somos reconciliados.
Isso muda profundamente a maneira como encaramos a vida cristã:
- Você não precisa provar nada a Deus. Em Cristo, você já foi aceito.
- Você não vive sob ameaça. A ira foi satisfeita; a reconciliação foi selada.
- Você não caminha sozinho. Tem acesso permanente à graça, firme e aberta.
Quando as tribulações vierem, e elas virão; lembre-se: elas não são sinais de abandono, mas instrumentos pedagógicos nas mãos de um Pai amoroso. A pressão (thlipsis) não nos esmaga; nos amadurece. Ela produz perseverança, forja caráter e aprofunda a esperança que não decepciona, porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo.
Olhe para a cruz quando o coração vacilar. Ali está a prova irrefutável do amor de Deus; Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores. Se Deus nos amou naquele ponto, Ele certamente nos sustentará agora. A ressurreição garante que o futuro não é ameaça, mas promessa.
Portanto, viva reconciliado. Caminhe com ousadia humilde. Sirva com alegria reverente. Suporte as provações com esperança robusta. A vida cristã não começa no medo; começa na paz. E essa paz foi comprada com sangue e garantida para sempre.
Oração
Senhor nosso Deus, agradecemos porque, em Cristo, não somos mais inimigos, mas reconciliados. Ensina-nos a viver em paz contigo, firmes na graça, cheios de esperança e sustentados pelo Teu amor. Dá-nos olhos para ver propósito nas tribulações e um coração que se alegre em Ti. Em nome de Jesus, amém.
