Quando Jesus se assenta à mesa

04/01/2026

Por: Pr. Reginaldo Cresencio

Pregado no domingo pela manhã, 04 de janeiro de 2026,

na Igreja Batista Raízes, São Carlos - SP.

Texto Base:

Lucas 24.28–35; Mateus 26.26–29; 1 Coríntios 11.23–26

Introdução

Grande parte da vida cristã não acontece em grandes momentos espirituais, mas na repetição silenciosa do cotidiano. Acordamos, trabalhamos, comemos, conversamos, enfrentamos preocupações, lidamos com frustrações e seguimos adiante. Muitas vezes, nesses espaços comuns, somos tentados a pensar que Deus está distante, silencioso ou ausente.

Mas o evangelho nos revela uma verdade profundamente consoladora; Jesus não apenas visita momentos extraordinários; Ele se encarna na vida comum. O Filho de Deus caminha por estradas poeirentas, entra em casas simples, senta-se à mesa com pecadores, reparte pão com discípulos confusos e transforma refeições ordinárias em encontros eternos.

A Ceia do Senhor é o testemunho supremo dessa realidade. Um ato simples; pão partido e vinho compartilhado torna-se o centro da fé cristã, porque Cristo se faz presente ali, não de forma mágica, mas real, espiritual, graciosa e transformadora.

Hoje, ao celebrarmos a Ceia do Senhor, somos convidados a reconhecer que Cristo ainda se assenta à mesa, e onde Ele está presente, nada permanece comum.

I. Jesus transforma o caminho comum em lugar de revelação

(Lucas 24.13–27)

Os discípulos a caminho de Emaús estavam vivendo um dia comum, marcado por frustração, cansaço e decepção. Não estavam em peregrinação espiritual; estavam voltando para casa, tentando reorganizar a vida após o colapso de suas esperanças messiânicas. Para eles, a cruz havia encerrado tudo. O Cristo que esperavam parecia derrotado; caminhavam, conversavam, repetiam perguntas sem respostas. Nada de especial parecia acontecer.

E é justamente nesse caminho ordinário que Jesus se aproxima.

"O próprio Jesus se aproximou e ia com eles" (Lc 24.15)

Jesus não aparece em glória, não os confronta com reprovação imediata, não exige reconhecimento. Eles não o reconheceram. A presença de Cristo não foi percebida de imediato. Ele caminhou, ouviu, perguntou, explicou as Escrituras, tudo isso antes de qualquer manifestação extraordinária.

Jesus muitas vezes está presente antes de ser reconhecido. Ele participa silenciosamente do nosso cotidiano, mesmo quando estamos confusos, desanimados ou espiritualmente cegos.

Cristo não se afasta quando nossa fé está fraca. Ele se aproxima.

Teologicamente, isso revela a iniciativa graciosa de Deus. Não somos nós que encontramos Cristo; é Ele quem nos encontra no caminho, mesmo quando nossos olhos ainda estão impedidos de reconhecê-lo.

II. Jesus transforma uma refeição simples em experiência de comunhão (Lucas 24.28–31)

O ponto de virada acontece à mesa.

"Estando com eles à mesa, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes deu" (Lc 24.30)

Nada de diferente externamente; pão, gesto simples, refeição comum. Mas o texto diz:

"Então se lhes abriram os olhos, e o reconheceram" (Lc 24.31)

Foi na mesa, no ato simples de partir o pão, que os olhos foram abertos.

Aqui está o coração da Ceia do Senhor: Cristo transforma o ordinário em revelação quando Ele mesmo está presente.

A mesa deixa de ser apenas refeição e se torna lugar de encontro, comunhão e discernimento espiritual.

III. Jesus transforma o pão comum em sinal da redenção (Mateus 26.26–28)

Na última ceia, Jesus faz algo ainda mais profundo, Ele redefine o significado do cotidiano.

"Isto é o meu corpo… isto é o meu sangue"

Pão e vinho não mudam de substância, mas mudam de significado. Aquilo que sustentava o corpo agora anuncia a salvação da alma.

A Ceia nos ensina que:

  • O comum pode se tornar sagrado
  • O visível aponta para o invisível
  • O presente cotidiano é atravessado pela eternidade

Cristo não escolheu um ritual distante da vida real, mas algo profundamente humano, comer juntos.

IV. Jesus transforma participantes comuns em testemunhas ardentes (Lucas 24.32–35)

Depois da mesa, os discípulos não permanecem os mesmos:

"Porventura não nos ardia o coração…?" (Lc 24.32)

Eles se levantam, voltam, testemunham. A refeição se torna missão.

A Ceia não termina na mesa, ela nos envia ao mundo.

Quem se encontra com Cristo no partir do pão:

  • Tem os olhos abertos
  • O coração aquecido
  • Os pés colocados novamente no caminho

V. Aplicações

1. Não despreze o cotidiano

Cristo está presente nos momentos simples da sua vida: refeições, conversas, rotinas, lágrimas silenciosas.

Cristo ainda entra nos momentos comuns da sua vida, Ele caminha com você mesmo quando a fé está cansada.

2. A Ceia nos ensina a ver com olhos espirituais

Não é apenas pão e vinho. É memória viva da cruz, comunhão com Cristo e com a igreja, anúncio da esperança futura. Ela nos ensina a ver além do visível, a discernir a presença do Ressuscitado no meio da igreja.

3. Cristo ainda se assenta à mesa

Quando a igreja se reúne em obediência, reverência e fé, o Senhor cumpre sua promessa:

"Eis que estou convosco todos os dias."

4. Quem participa da Ceia é chamado à transformação

Não apenas emocional, mas ética, espiritual e comunitária. Quem se alimenta de Cristo não permanece o mesmo.

Conclusão

Hoje, diante da mesa do Senhor, somos lembrados de que a graça não nos retira do mundo, mas transforma o mundo a partir da presença de Cristo.

O mesmo Jesus que caminhou com os discípulos, que partiu o pão em Emaús, que ofereceu seu corpo na cruz, está espiritualmente presente conosco.

Que ao participarmos da Ceia:

  • Nossos olhos sejam abertos
  • Nossos corações aquecidos
  • Nossa vida cotidiana seja transformada

Porque quando Jesus participa, nada permanece comum.

Oração Final

Senhor nosso Deus e Pai, nós nos achegamos diante de Ti com reverência, gratidão e temor santo.

Obrigado porque, em Cristo, o Senhor não se afastou da nossa humanidade, mas entrou em nossa história, caminhou conosco e se assentou à mesa conosco.

Perdoa-nos, Pai, por tantas vezes não percebermos Tua presença nos caminhos comuns da vida, por olharmos apenas para a dor e não para a graça, por sentarmos à mesa sem discernir o Cristo que nela se revela.

Nesta manhã, ao lembrarmos do corpo partido e do sangue derramado, renova nossa fé, aquece nossos corações, abre nossos olhos espirituais e restaura nossa esperança.

Que saiamos deste culto não apenas saciados emocionalmente, mas transformados espiritualmente, dispostos a viver para a glória daquele que morreu e ressuscitou por nós.

Em 2026, assenta-Te conosco, Senhor, hoje, amanhã e todos os dias, até o dia em que nos assentaremos à mesa do Reino eterno.

Oramos em nome de Jesus Cristo, o Cordeiro que foi morto e vive para sempre. Amém.

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Mensagem para usar durante o período de entrega do cálice e pão

Neste momento, somos convidados a nos aproximar da mesa do Senhor. Não nos achegamos a um ritual vazio, nem a um símbolo sem vida, mas a um ato santo, instituído pelo próprio Cristo, para lembrar, proclamar e discernir sua obra redentora.

O pão que receberemos é simples, como as refeições do cotidiano. O cálice que será compartilhado é comum, como tantos outros que usamos todos os dias. Mas, nesta mesa, o comum é visitado pela graça. Aqui, o ordinário é atravessado pela eternidade.

Ao participarmos da Ceia, confessamos que foi no corpo partido de Cristo que fomos reconciliados com Deus, e que foi no sangue derramado do Cordeiro que recebemos perdão, vida e esperança. Recordamos sua morte, celebramos sua ressurreição e aguardamos sua gloriosa volta.

Por isso, façamos isso com reverência, fé e arrependimento sincero. Não porque sejamos dignos em nós mesmos, mas porque fomos feitos participantes da graça pela obra perfeita de Jesus.

Que, ao nos assentarmos à mesa do Senhor, nossos olhos sejam abertos, nossos corações aquecidos e nossa fé renovada.

Porque onde Cristo se faz presente, nada permanece comum.