Resolvidos a viver bem
Um chamado a uma vida mais presente, mais profunda e mais fiel em 2026

Por: Lucas Cresencio
Texto base
Efésios 5:15–17
"¹⁵ Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como sábios,
¹⁶ aproveitando ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus.
¹⁷ Portanto, não sejam insensatos, mas procurem compreender qual é a vontade do Senhor."
INTRODUÇÃO — O ANO NÃO PASSA POR NÓS, NÓS PASSAMOS PELO ANO
2026 já começou. E ele vai passar — queiramos ou não. Quando este ano terminar, todos nós estaremos em algum lugar. Talvez mais maduros, talvez apenas mais cansados. Talvez mais cheios de sentido, talvez apenas mais cheios de distrações. Talvez mais sábios — ou apenas mais ocupados.
O tempo não pede licença. Ele não pergunta se estamos prontos.
Ele simplesmente anda. A grande pergunta não é se 2026 vai passar. A pergunta é
como nós vamos passar por ele.
Jonathan Edwards entendeu isso muito cedo. Com apenas 19 anos de idade, ele percebeu algo que muitos só aprendem depois de décadas — e alguns nunca aprendem: uma vida boa não acontece por acidente.
Por isso, Edwards escreveu 70 resoluções. Não como promessas emocionais
de virada de ano. Não como frases bonitas para se sentir melhor consigo mesmo.
Mas como um compromisso sério, consciente, diante de Deus.
Nesse começo de ano temos muito o costume de fazer as nossas resoluções, e eu acredito que elas são importantíssimas, mas elas não deveriam ser feitas de maneira desleixada. Vamos nos inspirar nas resoluções de Jonathan Edwards para que elas nos inspirem a nos tornarmos pelo menos um pouco melhores do que somos hoje no fim desse ano e no fim dessa vida.
Mas antes de continuar, é importante entender quem foi esse homem pra ninguém aqui ficar perdido, pois vamos falar muito no nome dele. Jonathan Edwards foi um pastor e teólogo, nascido em 1703, e é amplamente considerado o maior teólogo já produzido em solo americano. Um homem de mente extraordinária, mas também de profunda vida pastoral, marido, pai e líder espiritual em um dos períodos mais decisivos da história dos Estados Unidos.
Edwards viveu no contexto do puritanismo. E aqui precisamos fazer uma anedota e corrigir um erro comum. Os puritanos não eram inimigos da alegria, da cultura ou da vida. Eles eram pessoas que acreditavam que toda a vida deveria ser vivida diante de Deus.
Para eles, trabalhar bem era ato de adoração. Estudar era devoção. Criar filhos era missão. Viver com disciplina não era opressão — era sabedoria. Eles entendiam algo que nossa geração tem dificuldade de aceitar: uma sociedade saudável nasce de pessoas interiormente formadas, não de indivíduos entregues aos próprios impulsos.
Jonathan Edwards foi herdeiro e talvez o maior expoente dessa visão. Embora não tenha sido um político, ele é frequentemente reconhecido como um dos pais intelectuais da América. A ética puritana que ele representava moldou profundamente ideias como responsabilidade pessoal, amor pelo conhecimento, uso disciplinado do tempo e a convicção de que liberdade só se sustenta onde há virtude.
E esse legado não ficou apenas nos livros. Foi feito uma análise entre um contemporâneo de Edwards que era um cara terrível e totalmente desprezível e depravado, foi constatado que ao longo das gerações, a família de Jonathan Edwards produziu pastores, professores, médicos, juristas, presidentes de universidades e líderes culturais. Já a família desse outro homem produziu ladrões, corruptos, agressores de lar e assassinos. Essa é uma coisa interessante de se pensar. Não quer dizer que seu destino está desenhado por causa de algo que seus pais avós fizeram ou por quem eles eram, mas é de se pensar que isso se deu na linhagem de Edwards não porque ele fosse perfeito, mas porque ele entendeu algo simples e poderoso: o caráter que você forma hoje ecoa por muito mais tempo do que você imagina.
Mas perceba algo importante: Edwards não escreveu suas resoluções para fugir do mundo. Ele não queria se tornar um monge isolado da realidade. Ele escreveu resoluções para viver bem no mundo, diante de Deus e diante das pessoas. E é exatamente isso que eu desejo para você em 2026.
Eu não quero apenas que você seja um cristão mais ocupado. Não quero apenas mais presença em eventos ou mais atividades na agenda. Eu quero que você seja um ser humano melhor. Mais presente nas conversas. Mais atento às pessoas. Menos dominado por telas. Mais interessado em livros, ideias, cultura e aprendizado. Mais comprometido com a vida da igreja. E, ao final deste ano, alguém que consiga olhar para trás com satisfação serena e dizer: "não foi um ano perfeito, mas foi um ano bem vivido".
E isso não vai acontecer por acaso. Não vai acontecer no piloto automático. Não vai acontecer sem decisão consciente. Assim como Jonathan Edwards entendeu aos 19 anos, nós precisamos entender hoje: uma vida que vale a pena precisa ser escolhida — e sustentada — dia após dia.
Tentaremos apender a fazer isso hoje com 6 lições que separei para nós.
I. UMA VIDA BOA EXIGE INTENCIONALIDADE
A Bíblia nunca trata a vida como algo a ser improvisado. Em nenhum momento a Escritura sugere que viver bem seja fruto do acaso, da sorte ou da espontaneidade contínua.
O texto é direto:
"Pondera a
vereda de teus pés, e todos os teus caminhos serão retos."
(Provérbios 4:26)
A palavra "pondera" aqui é decisiva. Ela carrega a ideia de pesar, avaliar, refletir antes de andar. O sábio bíblico não é aquele que anda rápido, mas aquele que sabe para onde está indo.
Jonathan Edwards entendeu isso cedo. Ele percebeu que, se não decidisse conscientemente como viver, acabaria vivendo como desse — reagindo às circunstâncias, aos impulsos, aos desejos do momento. E isso continua sendo verdade hoje.
Se você não decide como usar seu tempo, ele será consumido. Se você não decide o que formar sua mente, ela será moldada pelo ambiente. Se você não decide como viver, alguém — ou algo — decidirá por você.
Parece repetitivo, mas é verdade, vivemos hoje em um mundo que disputa ferozmente nossa atenção. Nunca houve, na história da humanidade, um ambiente tão agressivo contra a interioridade humana. Telas infinitas. Entretenimento constante. Estímulos incessantes. Dopamina fácil, rápida e barata.
A própria ciência, a ciência cognitiva já demonstrou algo preocupante: quanto mais fragmentada é nossa atenção, mais superficial se torna nossa capacidade de pensar profundamente, de refletir, de manter presença real nas relações e até de sustentar práticas espirituais prolongadas.
Não é apenas uma questão moral — é neurológica. O cérebro se adapta àquilo que repetimos. O que fazemos todos os dias nos forma.
E aqui está o problema: nunca tivemos tanto acesso à informação —
e nunca tivemos tão pouca formação. Sabemos de tudo um pouco, mas compreendemos
pouco profundamente. Consumimos muito, mas digerimos quase nada. Estamos sempre
ocupados, mas raramente intencionais.
Do ponto de vista teológico, isso é sério. A Escritura nos ensina que o ser humano não é moldado apenas por aquilo que crê, mas por aquilo que ama. E amamos aquilo ao qual dedicamos tempo, atenção e energia.
Jesus disse:
"Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração."
Se nosso tempo é entregue ao acaso, nosso coração seguirá o mesmo caminho. Edwards diria que uma vida espiritual fraca raramente nasce de rebeldia explícita. Ela nasce, quase sempre, de uma negligência silenciosa.
Do ponto de vista filosófico, essa é uma questão antiga. Aristóteles já afirmava que o ser humano se torna aquilo que pratica repetidamente. Virtude não é um sentimento, é um hábito. E hábitos não surgem espontaneamente — eles são cultivados.
O cristianismo aprofunda essa verdade: não apenas nos tornamos aquilo que praticamos, mas seremos cobrados diante de Deus pela forma como administramos o tempo, os dons e as oportunidades que recebemos.
Por isso, precisamos dizer isso com clareza e amor: Você não se torna mais presente por acaso. Você não constrói bons relacionamentos por inércia. Você não se torna alguém culto, interessante, sábio e espiritualmente maduro rolando o feed.
Nada de valor profundo cresce no piloto automático. Se 2026 for vivido reagindo apenas ao que aparece na tela, ele será esquecido. Será mais um ano que passou rápido demais e deixou pouco para trás.
Mas se 2026 for vivido com intenção — com escolhas conscientes,
com decisões espirituais claras, com resoluções assumidas diante de Deus — ele
será lembrado.
Não porque foi fácil. Mas porque foi bem vivido. E é exatamente isso que estamos propondo aqui: não uma vida perfeita, mas uma vida deliberada, vivida com consciência, propósito e temor de Deus.
II. VIVER MAIS PRESENTE: MENOS TELAS, MAIS VIDA REAL
O tempo não é apenas um recurso — é a própria matéria da vida.Desperdiçar tempo não é apenas perder minutos; é desperdiçar partes da própria existência.
Por isso, a oração do salmista é tão profunda:
"Ensina-nos a
contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio."
(Salmo 90:12)
Contar os dias não significa viver ansioso ou obcecado pelo relógio. Significa viver consciente da finitude. Significa entender que cada dia carrega peso, significado e responsabilidade. O coração sábio não nasce da pressa, mas da percepção de que a vida é limitada — e, por isso mesmo, preciosa.
A grande ironia da nossa época é esta: nunca estivemos tão conectados — e
nunca estivemos tão ausentes. Ausentes à mesa, enquanto o celular vibra. Ausentes
nas conversas, enquanto a mente percorre notificações. Ausentes no culto,
presentes fisicamente, mas dispersos interiormente. Ausentes até dentro de
casa, no mesmo espaço, mas em mundos diferentes. Não é apenas uma questão de
educação ou costume social.
É uma questão espiritual e antropológica.
A cultura contemporânea entendeu algo que muitas igrejas ainda relutam em admitir: a batalha central do nosso tempo é pela atenção. As grandes empresas de tecnologia não competem principalmente pelo seu dinheiro. Elas competem pelo seu foco, pelo seu olhar, pelo seu tempo desperto.
E isso não é teoria conspiratória — é ciência aplicada. Algoritmos são desenhados para manter você engajado, reagindo, rolando, clicando. Cada notificação é uma pequena promessa de recompensa. Cada estímulo reforça o hábito da distração.
Do ponto de vista neurocientífico, aquilo que captura repetidamente nossa atenção acaba moldando nossos padrões mentais, emocionais e até espirituais. Atenção não é neutra. Ela forma desejos. E desejos moldam caráter.
Se entregamos o melhor do nosso tempo ao que é superficial,
não deveríamos nos surpreender quando nossa vida se torna superficial. Se
nossas horas mais lúcidas são consumidas por distração constante, não
deveríamos estranhar a dificuldade de orar, ler, refletir ou permanecer
presentes.
Aqui entra uma verdade incômoda, mas necessária: presença é uma escolha. Ninguém se torna presente por acidente. Ninguém vive profundamente por inércia. Ninguém constrói uma vida interior sólida vivendo permanentemente estimulado.
Por isso, uma resolução cristã legítima para 2026 pode — e talvez deva — começar aqui. Menos tempo automático diante das telas. Menos consumo impulsivo de conteúdo irrelevante. Mais conversas sem celular sobre a mesa. Mais caminhadas sem fones de ouvido. Mais silêncio sem culpa. Mais leitura que exige atenção. Mais presença real no culto, no estudo bíblico, nas reuniões da igreja.
Isso não é nostalgia de um passado idealizado. Não é tecnofobia. Não é rejeição do progresso. Isso é sabedoria. Sabedoria bíblica. Sabedoria humana. Sabedoria espiritual. É reconhecer que, se não protegermos o tempo e a atenção, perderemos algo muito mais precioso do que produtividade: perderemos a capacidade de viver com profundidade diante de Deus e das pessoas. E um ano vivido sem presença dificilmente será lembrado como um ano que valeu a pena.
III. UMA VIDA MAIS CULTA É UMA VIDA MAIS HUMANA
Jonathan Edwards era um leitor voraz. Ele lia teologia com profundidade, filosofia com rigor e ciência natural com curiosidade genuína. Para ele, pensar bem fazia parte de amar bem a Deus. Edwards entendia algo que, em muitos momentos da história da igreja, foi esquecido — e em outros, abandonado: a fé cristã não empobrece a mente; ela a expande. A Escritura nunca tratou o conhecimento como inimigo da piedade. Ao contrário, ela o apresenta como parte essencial da sabedoria.
O texto diz:
"O coração do sábio adquire o
conhecimento, e o ouvido dos sábios procura o saber."
(Provérbios 18:15)
Observe a linguagem: o sábio adquire, ele busca, ele se esforça, ele procura. Conhecimento não é algo que simplesmente cai sobre nós; é algo que exige atenção, disciplina e humildade.
Do ponto de vista teológico, isso é fundamental. O maior mandamento não nos chama apenas a amar a Deus com o coração e a alma, mas também com a mente. Uma fé que não pensa acaba sendo facilmente manipulável, superficial e frágil. Ela reage mais do que discerne. Ela consome slogans, mas não sustenta convicções.
De certa maneira, uma vida humana plena sempre esteve ligada à formação da mente. Desde a antiguidade, os grandes pensadores compreenderam que o ser humano se torna mais humano à medida que amplia sua capacidade de compreender o mundo, interpretar a realidade e dialogar com ideias maiores do que ele mesmo.
A cultura que abandona os livros empobrece o pensamento. O indivíduo que abandona o estudo perde profundidade. E a fé que abandona a reflexão corre o risco de se tornar caricatura.
Aqui está uma verdade que precisa ser dita com franqueza e amor: Cristãos não deveriam ser pessoas rasas. Não deveriam ser conhecidos apenas por opiniões rápidas ou frases prontas. Deveriam ser pessoas com quem vale a pena conversar. Pessoas que sabem ouvir. Pessoas que sabem pensar. Pessoas que sabem sustentar um diálogo. Pessoas que enriquecem o ambiente onde estão. Boas companhias.
A cultura popular, curiosamente, já percebeu isso. C.S. Lewis dizia que quem lê bons livros vive mil vidas; quem não lê, vive apenas uma — e geralmente uma vida estreita, limitada, repetitiva. Ler amplia o vocabulário, a imaginação, a empatia e a capacidade de compreender o outro. Estudar história nos ensina humildade. A arte nos educa emocionalmente. A literatura nos coloca diante das grandes perguntas da existência. Nada disso é perda de tempo para o cristão. Tudo isso, quando bem orientado, nos torna mais úteis ao Reino de Deus.
Por isso, uma resolução cristã saudável para 2026 pode passar por algo simples e profundamente transformador. Ler mais livros e menos manchetes. Trocar o consumo fragmentado de informação por estudo consistente. Estudar a Bíblia com seriedade, não apenas por devoção rápida, mas com desejo real de compreensão. Aprender história, arte e literatura. Conversar sobre ideias, não apenas sobre problemas.
Isso não nos afasta da fé. Isso não nos torna frios ou orgulhosos. Isso nos torna mais interessantes, mais maduros, mais equilibrados e mais preparados para servir a Deus e às pessoas.
Uma igreja que lê melhor pensa melhor. Uma igreja que pensa melhor vive melhor. E uma fé que amadurece a mente fortalece o coração.
IV. RELACIONAMENTOS MELHORES EXIGEM CARÁTER, NÃO APENAS EMOÇÃO
Jonathan Edwards dedica várias de suas resoluções a algo que ele sabia ser central para a vida cristã prática: o modo como nos relacionamos com as pessoas. Ele fala de domínio da língua, paciência, perdão, ausência de vingança, humildade e autocontrole. Não são temas periféricos. Eles revelam onde a fé encontra a vida real.
A Escritura trata esse assunto com clareza:
"Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de misericórdia, bondade, humildade, mansidão e longanimidade… e, acima de tudo, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição." (Colossenses 3:12–14)
Observe o verbo: revesti-vos. Paulo não diz "sintam-se assim". Ele diz: vistam isso. Assumam isso. Pratiquem isso. Relacionamentos não são sustentados apenas por emoções espontâneas. Eles são sustentados por virtudes cultivadas.
Aqui está uma verdade que nossa cultura reluta em aceitar: Relacionamentos
não fracassam, na maioria das vezes, por falta de sentimento, mas por falta de
caráter. Sentimentos oscilam. Virtudes sustentam. A emoção pode iniciar um
relacionamento,
mas somente o caráter pode mantê-lo.
O fruto do Espírito não é um sentimento momentâneo. É uma formação interior que se manifesta no trato com o outro. Uma espiritualidade profunda inevitavelmente se traduz em relacionamentos mais santos — não mais fáceis, mas mais maduros.
Desde Aristóteles, sabemos que virtude não é talento natural nem emoção espontânea. Virtude é hábito moral formado pela repetição de boas escolhas. Pessoas que não cultivam paciência se tornam irritáveis. Pessoas que não praticam o perdão se tornam amargas. Pessoas que não dominam a língua ferem mais do que percebem. E nenhuma quantidade de emoção compensa isso a longo prazo.
Relacionamentos duradouros não são mantidos por intensidade emocional constante, mas por padrões consistentes de respeito, escuta, empatia e autocontrole. Caráter cria segurança. Segurança sustenta vínculos.
Por isso, precisamos dizer isso com honestidade pastoral: Pessoas melhores constroem relacionamentos melhores. Maridos e esposas melhores constroem casamentos mais saudáveis. Cristãos mais maduros constroem igrejas mais fortes e mais seguras.
Talvez 2026 precise ser o ano em que você não resolve mudar o outro,
mas resolve trabalhar seriamente em si mesmo. Talvez seja o ano de: ouvir mais
e reagir menos, falar menos e pensar mais, pedir perdão mais rápido, parar de
revisitar ressentimentos antigos como se eles ainda tivessem direito de
governar seu coração. Essas não são pequenas decisões. São decisões
profundamente espirituais.
Porque, no fim, o cristianismo não apenas nos reconcilia com Deus —
ele nos forma para vivermos melhor uns com os outros. E onde o caráter cresce,
os relacionamentos respiram.
V. UMA VIDA CRISTÃ MAIS FIRME PASSA NECESSARIAMENTE PELA IGREJA
A espiritualidade cristã não deve ser concebida como algo isolado, privado ou desconectado da vida comunitária. Não existe cristianismo autêntico fora da igreja visível. Isso não é apego institucional. É convicção bíblica.
A Escritura fala com clareza:
"Consideremo-nos
uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras.
Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns…"
(Hebreus 10:24–25)
Note que o texto não apresenta a comunhão como algo opcional, secundário ou circunstancial. Ela é apresentada como meio de perseverança. A fé cristã foi pensada para ser vivida em comunidade porque o ser humano foi criado para ser formado em relação.
Aqui precisamos afirmar algo com clareza, especialmente em nossa época: Igreja não é evento. Igreja não é consumo espiritual. Igreja não é algo que se encaixa quando sobra tempo. Igreja é formação. Formação da mente pela Palavra. Formação do caráter pela convivência. Formação da fé pela disciplina espiritual compartilhada. Edwards sabia disso. Por isso, sua vida espiritual era profundamente eclesial. Ele pregava, ensinava, aconselhava, corrigia, caminhava com pessoas reais, com problemas reais, dentro de uma comunidade real.
Deus nos salva individualmente, mas nos forma coletivamente. Cristo é apresentado como cabeça de um corpo — não de indivíduos desconectados. Os dons espirituais só fazem sentido em relação ao outro. Uma fé vivida à margem da igreja tende a se tornar: frágil, idiossincrática, desequilibrada, e facilmente moldada pela cultura.
Do ponto de vista humano e sociológico, isso também é evidente. As
pessoas são formadas pelos ambientes nos quais permanecem. Comunidades moldam
valores.
Ritmos moldam hábitos. Presença molda pertencimento. Quem vive à margem da vida
comunitária tende a perder referência, correção, encorajamento e, com o tempo,
profundidade.
Por isso, precisamos dizer isso de forma pastoral, clara e honesta: Você não cresce espiritualmente longe da Palavra pregada, longe da comunhão cristã, longe da disciplina espiritual que a igreja proporciona. Não porque a igreja seja perfeita, mas porque Deus escolheu agir por meio dela.
Talvez 2026 precise ser o ano em que você reveja sua relação com a igreja. Não como obrigação, mas como meio de graça. Uma resolução santa para este ano pode ser simples, mas poderosa: mais fidelidade aos cultos, mais presença real nos estudos bíblicos, mais envolvimento concreto — não apenas nominal ou ocasional.
Isso não rouba sua vida. Isso não diminui sua liberdade. Isso não empobrece sua rotina. Isso organiza sua vida. Porque quando a Palavra ocupa um lugar fixo na semana, quando a comunhão se torna hábito, quando a fé é vivida em comunidade, a vida cristã deixa de ser instável, e passa a ser firme, enraizada e perseverante. E uma fé firme sustenta uma vida inteira.
VI. ESCREVENDO RESOLUÇÕES PARA UM ANO QUE VALHA A PENA
Agora, chegamos ao final do sermão e chegamos ao convite que quero fazer para vocês hoje.
Depois de tudo o que foi dito até aqui, eu não quero que você saia daqui apenas emocionado, reflexivo ou inspirado. Inspiração passa. Boas ideias evaporam. O que permanece são decisões assumidas diante de Deus. Eu quero que você saia daqui decidido.
Jonathan Edwards não escreveu suas resoluções uma única vez e as esqueceu numa gaveta. Ele escrevia, relia, revisava, ajustava e orava sobre elas continuamente. Elas não eram um manifesto de autoconfiança, mas um exercício constante de dependência da graça. E é exatamente isso que eu quero convidar você a fazer.
Escrever resoluções espirituais não é um ato de arrogância, como se
estivéssemos prometendo algo a Deus na força do braço. É um ato de humildade
consciente. É dizer:
"Senhor, eu sei que, se eu não decidir como viver, serei levado pela corrente.
Então, pela Tua graça, eu escolho viver de forma diferente."
Por isso, a primeira orientação é simples, mas essencial: Comece com dependência de Deus. Reconheça, desde a primeira linha, que sem a graça nenhuma boa intenção se sustenta.
A segunda orientação é igualmente importante: Seja específico. Resoluções genéricas produzem mudanças genéricas — ou nenhuma mudança. "Quero ser melhor" é um bom desejo, mas uma resolução fraca. "Quero usar melhor meu tempo" é vago demais para transformar a rotina. A vida é moldada por decisões concretas.
Por isso, ao escrever suas resoluções para 2026, pense em áreas reais da sua vida. Pense na sua vida espiritual. Como será seu tempo com Deus? Com que regularidade? Com que seriedade? Pense no uso do seu tempo. O que precisa diminuir? O que precisa ganhar espaço? Pense na leitura e no estudo. O que você vai alimentar na sua mente ao longo do ano? Pense nos seus relacionamentos. Onde você precisa ser mais presente, mais paciente, mais intencional? Pense na sua relação com a igreja. Como você vai se comprometer de forma mais fiel e concreta com a vida comunitária?
Jonathan Edwards escrevia resoluções que eram claras, diretas e exigentes. Não para se punir, mas para se lembrar diariamente de quem ele queria ser diante de Deus. Um exemplo de resolução possível poderia ser algo assim:
"Resolvo, pela graça de Deus, viver mais presente com minha família, menos dominado pelas telas, mais comprometido com a Palavra e com a igreja, e usar meu tempo de forma que, ao final de 2026, eu não me arrependa de tê-lo desperdiçado."
Não se trata de perfeição. Trata-se de direção.
Este é o momento em que fé encontra prática. Onde reflexão se transforma em compromisso. Onde o ano deixa de ser apenas uma sequência de semanas e passa a ter propósito. Porque, no fim das contas, um ano que vale a pena não é aquele em que tudo deu certo, mas aquele em que você viveu de forma consciente, fiel e intencional diante de Deus. E isso começa com uma decisão escrita, orada e vivida dia após dia.
CONCLUSÃO — QUE 2026 NÃO SEJA APENAS MAIS UM ANO
No final de 2026, uma coisa é absolutamente certa: você sentirá algo. Quando o ano terminar, quando as festas passarem, quando o ritmo desacelerar, quando o silêncio voltar, alguma sensação ficará no coração.
A pergunta não é se você sentirá algo. A pergunta é o quê. Será cansaço vazio — aquele esgotamento de quem viveu ocupado, mas não presente? Ou será satisfação serena — de quem sabe que viveu com intenção?
Será arrependimento silencioso — pelas oportunidades desperdiçadas, pelas conversas adiadas, pelos dias vividos no piloto automático? Ou será gratidão — mesmo pelas lutas, porque houve crescimento, aprendizado e fidelidade?
Será a sensação de que o ano passou rápido demais e deixou pouco para trás? Ou a consciência tranquila de que, apesar das dificuldades, a vida foi bem vivida?
Uma vida boa não é uma vida perfeita. A Bíblia nunca prometeu facilidade. Ela prometeu sentido. Uma vida boa é aquela vivida com atenção, com propósito, com temor de Deus e amor pelas pessoas. Uma vida em que o tempo não foi apenas gasto, mas investido. Uma vida em que a fé não foi apenas professada, mas praticada. Uma vida em que a presença foi escolhida, o caráter foi cultivado e a comunhão foi valorizada.
Que este seja o ano em que você viva mais acordado. Não anestesiado pela distração constante. Mais presente. Não apenas fisicamente, mas de coração inteiro. Mais profundo. Não satisfeito com superficialidades, mas disposto a crescer. Mais fiel. Não perfeito, mas constante, perseverante, dependente da graça.
E que, quando 2026 terminar, você possa olhar para trás sem pressa, sem vergonha e sem medo, e dizer com serenidade: "Não foi um ano fácil. Houve lutas, ajustes, quedas e aprendizados. Mas foi um ano que valeu a pena." Porque, no fim das contas, o que faz um ano valer a pena não é o quanto conseguimos fazer, mas quem nos tornamos diante de Deus ao longo do caminho.
Que o Senhor nos conceda a graça de vivermos assim.
