Uma Igreja Maior Que Nós - Rm 15.1-13

20/09/2026

Documento: n° 3.207

Sermão: no 3.203
Por: Pr. Reginaldo Cresencio,
Pregado no domingo á noite, 20 de setembro de 2026,
na Igreja Batista Raízes, São Carlos - SP. ______________________________________________________________________

Textos: Romanos 15:1-13 Introdução

Há uma maneira muito pequena de enxergar a igreja: olhar para ela apenas a partir de nós mesmos.

Meus gostos. Minhas expectativas. Aquilo que me agrada. A maneira como penso que as coisas deveriam ser feitas. As pessoas com quem tenho mais afinidade.

Sem perceber, podemos reduzir a igreja ao tamanho das nossas preferências.

Romanos 14 nos mostrou justamente o que acontece quando cristãos diferentes precisam aprender a viver juntos. Paulo falou sobre consciências distintas, convicções pessoais e irmãos que nem sempre chegam às mesmas conclusões.

Mas, ao entrarmos no capítulo 15, ele começa a ampliar o horizonte.

A discussão já não é apenas sobre como o forte deve tratar o fraco ou como irmãos diferentes conseguem permanecer na mesma comunidade. Paulo quer que enxerguemos o que Deus está fazendo com todos eles.

E ele começa com uma frase que confronta diretamente nossa tendência de colocar o "eu" no centro:

"Nós, que somos fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós mesmos."

Talvez essa última expressão seja mais profunda do que parece:

"não agradar a nós mesmos."

Porque muitos dos nossos conflitos não começam com grandes divergências teológicas. Às vezes começam simplesmente porque queremos que a vida se organize ao redor de nós.

Queremos o horário que nos atende, a música que apreciamos, o ministério funcionando como imaginamos, as pessoas reagindo como esperamos. E quando isso não acontece, facilmente pensamos que o problema está nos outros.

Paulo nos convida a sair desse lugar de consumismo religioso. E não demora a apresentar a razão:
"Pois também Cristo não agradou a si próprio."

Aqui o texto muda de tom.

Paulo não nos oferece uma técnica para melhorar a convivência. Ele nos leva a Cristo.

O Filho de Deus não entrou em nossa história buscando conforto. Não veio para encontrar pessoas parecidas com ele ou um mundo que correspondesse às suas expectativas. Sua vida foi marcada pela disposição de cumprir a vontade do Pai e entregar-se por outros.

É olhando para Cristo que começamos a compreender o que significa pertencer à igreja.

A igreja não existe para caber em mim.

Eu fui colocado por Deus dentro de algo muito maior do que eu.

E, à medida que o texto avança, essa dimensão vai ficando cada vez mais evidente. Paulo começa falando de fortes e fracos, depois fala de uma comunidade glorificando a Deus "com um só coração e uma só voz". Em seguida, aparecem judeus e gentios juntos. E, quando percebemos, estamos diante das antigas promessas de Deus alcançando os povos e as nações.

A lente vai se abrindo.

Aquilo que parecia apenas um problema de convivência dentro de uma igreja em Roma faz parte de uma história que Deus vinha escrevendo havia séculos.

Talvez precisemos recuperar essa visão.

Quando nos reunimos como igreja, é fácil enxergar apenas aquilo que está diante de nós: pessoas conhecidas, famílias, crianças, idosos, dificuldades, diferenças, algumas alegrias e também alguns problemas.

Mas Deus vê mais.

Ele vê pessoas que Cristo recebeu. Vê pecadores alcançados pela mesma graça. Vê homens e mulheres sendo unidos a uma história que começou muito antes de nós e continuará depois de nós.

E isso muda a pergunta.

Em vez de entrarmos na vida da igreja pensando "o que há aqui para mim?", Romanos 15 nos convida a perguntar:

"Que lugar Deus me concedeu naquilo que ele está fazendo entre nós?"

Talvez seja esse o convite desta passagem: sair de uma fé que gira em torno de nós mesmos e redescobrir a beleza de pertencer a um povo reunido por Cristo para a glória de Deus.

Porque a igreja tem os nossos problemas, nossas limitações e até nossas diferenças. Mas ela nunca poderá ser reduzida a isso.
A igreja é maior que nós.
E Paulo começa mostrando que, para enxergarmos essa grandeza, alguma coisa

precisa primeiro sair do centro: nós mesmos.

1. Uma fé que deixa de girar em torno de nós mesmos

Romanos 15.1–4

Paulo começa:

"Nós, que somos fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós mesmos."

A palavra "suportar" aqui não significa simplesmente tolerar alguém difícil. A ideia é carregar, assumir parte do peso.1

Isso muda bastante a maneira como pensamos a maturidade cristã.

Normalmente imaginamos que o cristão maduro é aquele que precisa de menos ajuda. Paulo acrescenta outra dimensão: maduro é também aquele que se torna capaz de carregar alguém.

"Cada um de nós deve agradar ao seu próximo para o bem dele, a fim de edificá-lo."

Perceba que Paulo não está ensinando uma vida governada pela aprovação das pessoas. O próprio versículo estabelece o limite: "para o bem dele, a fim de edificá-lo."

Há uma diferença entre viver para agradar pessoas e escolher o bem delas.
Isso nos toca diretamente como igreja.
É possível participar da igreja perguntando constantemente se estamos sendo

atendidos: se gostamos da música, se o horário é conveniente, se o estudo interessa, se as pessoas nos procuram, se recebemos atenção suficiente.

Mas há uma pergunta mais madura: "Quem estou ajudando a carregar?"

Talvez seja um irmão que está chegando agora. Uma família atravessando uma crise. Um idoso que precisa de atenção. Alguém que está espiritualmente cansado. Uma criança que precisa encontrar adultos interessados em sua fé.

A igreja muda quando deixamos de chegar apenas procurando aquilo de que precisamos e começamos a perceber quem Deus colocou perto de nós.

E então Paulo apresenta sua razão mais profunda:

"Pois também Cristo não agradou a si próprio."

Nosso modelo não é simplesmente o cristão mais maduro da igreja.
É Cristo.
Aquele que tinha toda a glória não fez de seu próprio conforto o centro de sua

existência. Paulo aplica a ele as palavras do Salmo 69:

"Os insultos daqueles que te insultam caíram sobre mim."

Cristo assumiu um peso que não era dele.

E aqui está a diferença que o evangelho produz: não servimos aos outros para sermos aceitos por Deus; porque fomos recebidos por Cristo, podemos deixar de viver apenas para nós mesmos.

Talvez, então, uma aplicação bastante simples nos ajude a viver o sermão nesta semana:

1 O verbo βαστάζω (bastazō), empregado em Romanos 15.1, pode transmitir a ideia de carregar ou suportar um peso. No contexto, Paulo exige dos "fortes" mais que tolerância passiva: sua força deve ser colocada a serviço daqueles que possuem fraquezas. Cf. Gl 6.2; MOO, Douglas J. The Letter to the Romans; SCHREINER, Thomas R. Romans.


Em vez de perguntar apenas "do que eu preciso?", olhe ao redor e pergunte: "que peso eu posso ajudar alguém a carregar?"

Pode ser uma conversa. Uma visita. Uma oração. Um serviço que ninguém percebe. Às vezes, algo pequeno para nós será exatamente aquilo de que alguém precisava naquele dia.

Porque uma igreja começa a se tornar maior que nós quando nós deixamos de ser o centro dela.

2. Uma igreja que encontra sua voz em Cristo

Romanos 15.5–7

Depois de nos chamar a carregar uns aos outros, Paulo transforma sua exortação quase em uma oração:

"O Deus que concede perseverança e ânimo dê-lhes um espírito de unidade, segundo Cristo Jesus, para que com um só coração e uma só voz vocês glorifiquem ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo."

Paulo não está sonhando com uma igreja em que todos tenham a mesma personalidade, os mesmos gostos ou a mesma opinião sobre tudo.

Ele deseja algo mais profundo: uma igreja tão centrada em Cristo que suas diferenças já não sejam capazes de definir sua comunhão.2

A imagem de "um só coração e uma só voz" é muito bonita.
Pense em um coral.
Um coral não é formado por muitas pessoas cantando exatamente a mesma nota.

Há vozes graves e agudas, timbres diferentes, funções diferentes. Se todos tentassem cantar a mesma parte, parte da beleza desapareceria.

A harmonia nasce quando vozes diferentes seguem a mesma música.

A igreja também não precisa transformar todos em cópias uns dos outros. Nossa unidade não está em sermos iguais, mas em pertencermos ao mesmo Cristo.

E então Paulo chega ao coração dessa seção:

"Portanto, aceitem-se uns aos outros, da mesma forma como Cristo os aceitou, a fim de que vocês glorifiquem a Deus."

Talvez este seja um bom versículo para olharmos para nossa própria igreja.
Não escolhemos todos aqueles que Cristo colocou ao nosso lado.
Na igreja encontramos pessoas com histórias, temperamentos e gerações diferentes.

Algumas se tornam amigas rapidamente; com outras, a convivência exige mais de nós. Mas Paulo não diz: "Aceitem aqueles com quem vocês têm afinidade".
Ele estabelece outro padrão:
"da mesma forma como Cristo os aceitou."

Isso é importante, pois muda tudo.

2 A expressão de Romanos 15.5 traduzida como "um espírito de unidade" não exige uniformidade de opiniões, mas uma disposição comum "segundo Cristo Jesus", culminando na adoração conjunta de 15.6. O objetivo da unidade cristã é doxológico: a comunidade reconciliada glorifica conjuntamente a Deus. Cf. MOO, Douglas J. The Letter to the Romans; STOTT, John R. W. A Mensagem de Romanos; SCHREINER, Thomas R. Romans.

Quando começo a considerar um irmão difícil demais para amar, talvez precise me lembrar de quanta graça foi necessária para que Cristo recebesse a mim.

E há uma aplicação muito prática aqui: não permita que a igreja se transforme apenas em pequenos círculos de afinidade.

Converse com quem normalmente você não conversa. Perceba quem chegou recentemente. Sente-se algumas vezes perto de pessoas diferentes. Convide alguém que ainda não faz parte do seu círculo.

São atitudes pequenas, mas elas dizem algo grande: Cristo nos fez uma família. E qual é o resultado?
"...a fim de que vocês glorifiquem a Deus."
A unidade da igreja não termina em nós.

Quando pessoas diferentes, alcançadas pela mesma graça, conseguem adorar, servir e caminhar juntas, alguma coisa sobre o poder do evangelho se torna visível.

Somos muitas vozes.
Mas temos uma mesma canção.
E Paulo está prestes a mostrar que esse coral é muito maior do que a igreja de

Roma poderia imaginar.


3. Uma igreja que participa de uma história muito maior

Romanos 15.8–13

Agora Paulo amplia ainda mais o horizonte:

"Pois eu lhes digo que Cristo se tornou servo dos que são da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para confirmar as promessas feitas aos patriarcas, a fim de que os gentios glorifiquem a Deus por sua misericórdia."

Aquilo que parecia apenas uma dificuldade de convivência entre cristãos judeus e gentios fazia parte de algo muito maior.

Deus estava cumprindo suas promessas.

Cristo veio confirmando aquilo que Deus havia prometido aos patriarcas, e a misericórdia agora alcançava também os gentios. A igreja de Roma não era um improviso da história. Fazia parte do propósito de Deus anunciado nas Escrituras.3

Por isso Paulo reúne quatro textos do Antigo Testamento. Ele passa pelos Salmos, por Deuteronômio e por Isaías, e em todos eles encontramos os povos sendo chamados para louvar ao Senhor.

"Cantem de alegria, ó gentios, com o povo dele." "Louvem o Senhor, todos vocês, gentios."

3 Em Romanos 15.8–12, Paulo apresenta a inclusão dos gentios não como mudança inesperada no propósito divino, mas como cumprimento das promessas das Escrituras. A sequência de citações reúne diferentes partes do Antigo Testamento — 2Sm 22.50/Sl 18.49; Dt 32.43; Sl 117.1; Is 11.10 — mostrando judeus e gentios unidos no louvor a Deus. Cf. MOO, Douglas J. The Letter to the Romans; SCHREINER, Thomas R. Romans; STOTT, John R. W. A Mensagem de Romanos.

Até chegar à promessa de Isaías:

"A Raiz de Jessé4 surgirá, aquele que se levantará para reinar sobre os gentios; estes colocarão nele a sua esperança."

Talvez os cristãos em Roma estivessem olhando uns para os outros e enxergando principalmente suas diferenças.

Paulo olha para eles e enxerga profecia cumprida.

Judeus e gentios adorando juntos eram evidência de que Deus havia sido fiel à sua Palavra.

Isso também muda a maneira como enxergamos uma igreja local.

Num domingo comum, podemos olhar ao redor e ver apenas as mesmas pessoas, no mesmo salão, seguindo a mesma rotina. Mas aquele culto pertence a uma história muito maior.

Quando a igreja canta, sua voz se une à de irmãos de outras culturas, línguas e gerações. Somos uma pequena congregação em uma cidade específica, mas pertencemos ao povo que Cristo vem reunindo dentre as nações.

A imagem do coral, então, fica ainda maior.
Não são apenas as diferentes vozes dentro desta igreja.
É um coral atravessando séculos e continentes, reunido em torno do mesmo

Rei.

Não estamos aqui apenas para manter uma instituição funcionando, preservar nossas preferências ou receber serviços religiosos. Fomos alcançados pela misericórdia de Deus e incluídos naquilo que ele está fazendo no mundo.

E então Paulo termina com uma oração:

"Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo."

Depois de tudo o que falou sobre diferenças e dificuldades, é significativo que Paulo termine falando de esperança.

A igreja não é apenas uma comunidade tentando administrar seus problemas.
É uma comunidade dos santos que sabe para onde a história está caminhando. Nossa esperança não está na capacidade de construirmos uma igreja perfeita. Está

no Deus que cumpre suas promessas, reina por meio de Cristo e continua reunindo seu povo pelo poder do Espírito Santo.

Por isso, talvez precisemos sair daqui com os olhos um pouco mais altos.

Quando os problemas da igreja parecerem grandes demais, lembre-se de que a história de Deus é maior que os nossos problemas.

Quando nossa pequena participação parecer insignificante, lembre-se de que fomos incluídos em algo que começou antes de nós e continuará depois de nós.

Somos apenas uma pequena voz.

4 A expressão "Raiz de Jessé" em Isaías 11.10 pertence ao contexto da esperança messiânica de Isaías 11.1– 10. Paulo a aplica a Cristo, cujo governo se estende também aos gentios e em quem eles colocam sua esperança. O encerramento de Romanos 15.13 retoma precisamente esse tema, agora associado à ação do Espírito Santo. Cf. Is 11.1–10; MURRAY, John. The Epistle to the Romans; CALVINO, João. Comentário à Epístola de Paulo aos Romanos.

Isso deveria nos livrar de uma visão pequena da igreja.

Mas pertencemos a um grande coral.
E nossa esperança está naquele que o conduz.

Conclusão

Romanos 15 nos lembra que pertencemos a algo muito maior que nós mesmos.

Somos pessoas diferentes, com histórias, temperamentos e vozes diferentes. Mas Cristo nos recebeu e nos reuniu em um só povo.

Como em um grande coral, não cantamos todos a mesma nota. Nossa unidade está em seguirmos o mesmo Cristo e cantarmos para a glória do mesmo Deus.

E quando olhamos para nossas limitações e pensamos que somos pequenos demais, Paulo nos lembra onde está nossa esperança:

"Que o Deus da esperança os encha de toda alegria e paz, por sua confiança nele, para que vocês transbordem de esperança, pelo poder do Espírito Santo."

Nossa esperança não está em construirmos uma igreja perfeita. Está em Cristo.
Ele é quem sustenta sua Igreja, reúne seu povo e a conduz. Somos apenas uma pequena voz em São Carlos.

Mas fazemos parte de um coral que atravessa a história.

Mas que privilégio é cantar nele. Oração

Senhor nosso Deus, obrigado porque nos recebeste em Cristo e nos fizeste parte do teu povo.

Livra-nos de uma vida cristã centrada em nós mesmos. Dá-nos olhos para perceber quem colocaste ao nosso lado, disposição para carregar os cansados e graça para acolher aqueles que são diferentes de nós.

Faz desta igreja um lugar onde muitas vozes, unidas em Cristo, glorifiquem o teu nome.

E quando nossas limitações parecerem grandes, lembra-nos de que tua obra é maior que nós.

Enche-nos de alegria e paz enquanto confiamos em ti e faz-nos transbordar de esperança, pelo poder do Espírito Santo.

Que Cristo permaneça no centro de tudo o que somos e fazemos. Em nome de Jesus.
Amém.


Bibliografia Consultada

CALVINO, João. Comentário à Epístola de Paulo aos Romanos. São José dos Campos: Fiel.

MOO, Douglas J. The Letter to the Romans. 2. ed. New International Commentary on the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans, 2018.

MURRAY, John. The Epistle to the Romans. Eerdmans Classic Biblical Commentaries. Grand Rapids: Eerdmans, 2018. A obra foi originalmente publicada em 1959 na série NICNT.

SCHREINER, Thomas R. Romans. 2. ed. Baker Exegetical Commentary on the New Testament. Grand Rapids: Baker Academic, 2018.

STOTT, John R. W. A Mensagem de Romanos: 5:1–16:27. São Paulo: ABU Editora.

WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo: Novo Testamento. Santo André: Geográfica.


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