O Idiota

Fiódor Dostoiévski


Documento: 3.214

Resenha: n° 0.026

Por: Pr. Reginaldo Cresencio,

30 de setembro de 2026, São Carlos - SP.

Preciso confessar uma coisa antes de começar: houve momentos em que Míchkin me irritou.

Não sei se era exatamente essa a reação que Dostoiévski esperava de seus leitores, mas aconteceu comigo. Em algumas cenas eu queria interromper a leitura e dizer ao príncipe: "Você não está percebendo o que está acontecendo? Reaja! Não confie tanto. Não se coloque nessa situação outra vez."

Ele provavelmente me olharia com aquela serenidade estranha e faria exatamente aquilo que eu estava pedindo para que não fizesse.

E talvez tenha sido justamente por isso que comecei a gostar dele.

Já havia lido Dostoiévski antes e, portanto, não esperava encontrar personagens simples. Quem entra em seus romances logo percebe que ali ninguém cabe facilmente em uma definição. As pessoas dizem uma coisa e fazem outra, amam e machucam, desejam desesperadamente alguma coisa e, quando finalmente se aproximam dela, parecem empenhadas em destruí-la.

É cansativo às vezes.

Mas também é assustadoramente humano.

Em O Idiota, Dostoiévski coloca no meio dessa gente um homem que parece não ter aprendido direito algumas das regras que todos nós aprendemos para sobreviver em sociedade.

O príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin está retornando à Rússia depois de alguns anos na Suíça, onde recebeu tratamento para sua epilepsia. Volta quase sem dinheiro e, desde as primeiras páginas, alguma coisa nele parece fora do lugar.[1]

Míchkin fala quando talvez fosse melhor ficar calado. Acredita nas pessoas quando nós já percebemos que não deveria acreditar. Não parece muito preocupado em preservar a própria reputação e possui uma capacidade desconcertante de perdoar.

As pessoas o consideram um idiota.

No começo, nós quase entendemos por quê.

Depois, pelo menos comigo, a pergunta começou a mudar.

Será que o problema está mesmo nele?

Não tenho tanta certeza.

Existe uma ideia conhecida por trás da criação de Míchkin. Dostoiévski desejava trabalhar literariamente a figura de um homem positivamente belo, alguém cuja bondade pudesse lembrar Cristo[2]. A aproximação é importante para compreender o romance, mas acho perigoso fazer dela uma chave que abra todas as portas.

Míchkin não é Jesus.

Quanto mais eu lia, mais essa diferença me interessava.

Ele é genuinamente bom. Sua compaixão não parece uma pose moral. Míchkin realmente se importa com as pessoas e, talvez ainda mais surpreendente, não se aproxima delas apenas pelo que podem lhe oferecer.

Só que sua bondade não resolve as coisas.

Às vezes até as complica.

Demorei um pouco para aceitar isso porque temos certa tendência de imaginar que, se nossas intenções forem boas, os resultados também serão. A vida já deveria ter nos ensinado que não funciona assim.

Dostoiévski certamente sabia disso.

E então surge Nastácia Filíppovna.

Não sei se existe uma maneira simples de falar dessa mulher.

Em algumas páginas senti uma enorme compaixão por ela. Em outras fiquei irritado. Houve momentos em que pensei: "Nastácia, por favor, pare de fazer isso consigo mesma."

Mas então sua história voltava.

Ela foi profundamente ferida. Abusada, manipulada e transformada muito cedo em objeto do desejo de outros homens. Aos poucos, parece ter aprendido a olhar para si mesma pelos olhos daqueles que a usaram.

Isso é terrível.

Porque chega um momento em que não é mais necessário alguém dizer que você não possui valor. Você mesmo começa a dizer.

E talvez essa seja uma das coisas mais dolorosas em Nastácia: ela parece desejar amor ao mesmo tempo em que não consegue acreditar que seja digna dele.

Míchkin percebe isso.

Enquanto muitos olham para aquela mulher e veem sua beleza, sua reputação ou aquilo que poderiam obter dela, o príncipe parece perceber primeiro sua dor.

Essa parte me tocou bastante.

Talvez por causa do ministério pastoral.

Ao longo dos anos, já me sentei diante de pessoas que fizeram coisas muito ruins. Algumas carregavam consequências de escolhas que elas próprias fizeram; outras estavam tentando sobreviver a coisas terríveis que fizeram contra elas. Na vida real, geralmente essas duas histórias acabam se misturando de maneiras difíceis de separar.

Aprendi que conhecer o pecado de alguém não significa necessariamente conhecer sua história.

Isso não transforma pecado em virtude nem elimina responsabilidade. Mas muda a maneira como olhamos para o pecador.

E Míchkin sabe olhar.

Talvez seja uma de suas características mais bonitas.

E então temos Parfion Rogójin.

Confesso que, durante boa parte do romance, fiquei tentando entender exatamente o que ele sentia por Nastácia.

Ele a ama?

Sim.

Não.

Talvez.

Esse é o problema.

Há uma intensidade enorme em seus sentimentos, mas intensidade não é necessariamente amor. Rogójin quer Nastácia perto de si de uma maneira que começa a parecer cada vez menos com amor e cada vez mais com posse.

Isso me fez pensar no quanto usamos mal essa palavra.

Às vezes dizemos "eu amo você" querendo dizer "eu preciso de você". Em outras ocasiões significa "não consigo imaginar você escolhendo outra pessoa". E há situações em que chamamos de amor aquilo que é apenas uma forma sofisticada de egoísmo.

Rogójin deseja Nastácia.

Míchkin deseja ajudá-la.

Ela fica entre esses dois homens e, por razões que só fazem sentido quando começamos a compreender sua vergonha, continua caminhando em direção ao caos.

Não quero contar demais. Parte da força do romance está justamente em acompanhar essa relação se tornando cada vez mais difícil.

Mas algo começou a me incomodar também em Míchkin.

Ele quer salvar Nastácia.

E não consegue.

"A beleza salvará o mundo[3]"

Cheguei à famosa frase.

"A beleza salvará o mundo."

Eu já a conhecia muito antes de chegar a O Idiota. Provavelmente muita gente também. É uma dessas frases que escaparam do livro e começaram uma vida própria.

Só que, dentro do romance, ela me pareceu bem menos confortável.

Nastácia é bela.

Extraordinariamente bela.

E sua beleza não salva ninguém.

Homens perdem o juízo por causa dela. Sua aparência desperta desejo, disputa, ciúme, fascínio. Em vários momentos fiquei pensando que quase ninguém conseguia vê-la justamente porque todos estavam olhando para ela.

Parece contraditório, mas acho que faz sentido.

Então, que beleza é essa capaz de salvar o mundo?

Não sei se Dostoiévski desejava que fechássemos a questão facilmente. Eu prefiro não fazê-lo.

Como cristão, naturalmente minha cabeça foi para Cristo.

Não porque eu precise transformar cada capítulo de Dostoiévski numa ilustração de sermão — seria uma injustiça com a literatura e provavelmente produziria uma resenha bastante ruim —, mas porque não consigo desligar minha fé quando abro um romance. Ela lê comigo.

E o cristianismo apresenta uma ideia bastante estranha de beleza.

No centro de nossa fé está um homem crucificado.

Isaías havia dito sobre o Servo que não haveria nele aparência que nos agradasse. E, ainda assim, é naquela entrega, naquele amor que vai até o fim, que o cristão contempla algo infinitamente belo.

Talvez a beleza que salva seja muito diferente da beleza que seduz.

Essa pergunta ficou comigo.

Também preciso dizer isso numa resenha sincera: houve trechos em que a leitura me cansou.

O Idiota não é pequeno. Há muitas personagens, nomes russos que exigem alguma familiaridade, conversas longas e encontros sociais que começam de maneira relativamente normal e, cinquenta páginas depois, já se transformaram numa mistura de discussão filosófica, confissão pública, humilhação, pedido de casamento, insulto e sabe-se lá mais o quê.

Em alguns momentos pensei: "Meu Deus, essa gente não consegue simplesmente tomar um chá?"

Não consegue.

Ainda bem.

Porque comecei a perceber que o caos das conversas faz parte do mundo que Dostoiévski está construindo. Seus personagens não conversam apenas para fazer a história avançar. Eles se revelam enquanto falam.

E falam muito.

A tradução de Paulo Bezerra, diretamente do russo, ajuda bastante nessa experiência. A edição da Editora 34 que li possui um cuidado editorial muito bonito, e há algo especialmente interessante em encontrar as ilustrações de Oswaldo Goeldi acompanhando esse universo tão carregado psicologicamente. A tradução de Bezerra recebeu, inclusive, o prêmio da APCA em 2002.

Não é uma leitura para correr.

Aliás, acho que Dostoiévski piora quando tentamos correr.

Em algum momento, comecei a sentir pena de Míchkin.

Não pena no sentido de desprezo.

Foi uma espécie de ternura.

Ele vai absorvendo os problemas das pessoas. Tenta compreender um, acolher outro, evitar que alguém sofra, reparar alguma situação. E quanto mais tenta, mais percebemos que existe uma quantidade de sofrimento ao seu redor que simplesmente não cabe dentro de um homem.

Talvez tenha sido aqui que o livro me encontrou de maneira mais pessoal.

Existe uma tentação no ministério pastoral sobre a qual nem sempre falamos.

A tentação de querer salvar pessoas.

Começamos com uma motivação legítima. Amamos alguém. Queremos ajudá-lo. Aconselhamos, oramos, ensinamos, advertimos. Quando a pessoa continua caminhando numa direção que sabemos que lhe fará mal, tentamos outra vez.

E mais uma.

Até descobrirmos, às vezes dolorosamente, que não podemos nos arrepender no lugar de ninguém.

Confesso que essa foi uma lição difícil para mim ao longo do ministério.

Ainda é.

Há momentos em que gostaria de poder pegar alguém pela mão e dizer: "Eu sei onde esse caminho termina. Não vá."

Mas a pessoa vai.

O pastor permanece.

Ora.

Espera.

E precisa aprender que amar uma ovelha não significa possuir poder para mudar seu coração.

Enquanto acompanhava Míchkin, essa lembrança voltou algumas vezes.

Ele enxerga a dor de Nastácia como poucos conseguem enxergar. Talvez ninguém no romance tenha por ela a compaixão que ele demonstra.

Mas compaixão não é onipotência.

E Míchkin não consegue salvá-la.

Opinião Sincera

Cheguei ao fim de O Idiota e fiquei algum tempo pensando se realmente tinha gostado do livro.

Parece estranho dar 9,5 para uma obra e dizer isso, eu sei.

Mas talvez "gostar" seja uma palavra pequena demais para alguns livros.

Não gostei de várias decisões dos personagens. Fiquei cansado em alguns trechos. Míchkin me irritou. Nastácia me deixou angustiado. Rogójin me incomodou profundamente.

E, apesar disso — ou talvez por causa disso —, continuei pensando neles depois de fechar o livro.

Para mim, esse é um dos sinais de uma grande obra.

Dostoiévski não me entregou personagens para admirar. Entregou-me seres humanos para compreender, e nem sempre conseguiu fazer com que eu os compreendesse completamente.

Ainda estou pensando em Míchkin.

Sua bondade me constrangeu algumas vezes. Sua ingenuidade me incomodou em outras. E houve momentos em que aquilo que eu chamava de ingenuidade nele me fez perguntar se eu não havia simplesmente aprendido a considerar normal uma certa dureza necessária para viver neste mundo.

Não gostei muito dessa pergunta.

Talvez justamente por isso ela tenha sido boa.

Mas outra coisa permaneceu comigo.

Míchkin é um homem profundamente compassivo tentando carregar dores grandes demais para ele.

E fracassa.

Não digo isso contra ele. Acho que foi justamente seu fracasso que me fez enxergá-lo com mais carinho.

Porque eu também não consigo salvar ninguém.

Depois de tantos anos como pastor, talvez eu devesse saber isso perfeitamente. Teologicamente, sei. Pastoralmente, ainda preciso reaprender de vez em quando.

Posso ouvir alguém por horas. Posso abrir a Bíblia. Posso aconselhar, advertir, abraçar, chorar junto e continuar orando quando já não sei mais o que dizer.

Mas chega um ponto em que minhas mãos não alcançam.

As de Cristo alcançam.

Foi curioso perceber que, no começo da leitura, eu estava procurando as semelhanças entre Míchkin e Jesus. Quando terminei, foram as diferenças que mais me tocaram.

Míchkin sente a dor das pessoas, mas não consegue redimi-las. Cristo entrou em nossa dor para nos redimir.

Talvez Dostoiévski não tenha pretendido me levar exatamente até essa conclusão.

Tudo bem.

Foi onde cheguei.

E essa é uma das razões pelas quais gosto tanto de literatura: às vezes fechamos um grande romance e percebemos que, enquanto tentávamos compreender seus personagens, acabamos descobrindo alguma coisa sobre nós mesmos.

O Idiota fez isso comigo.

E ainda estou pensando no príncipe.

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Nota: 9,5/10.

Obra consultada

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O idiota: romance em quatro partes. Tradução, prefácio e notas de Paulo Bezerra. Ilustrações de Oswaldo Goeldi. São Paulo: Editora 34, 2002.

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[1] O Idiota foi escrito entre 1867 e 1868 e publicado originalmente em 1868–1869. Dostoiévski atravessava nesse período dificuldades financeiras, viagens pela Europa e suas próprias crises de epilepsia, enfermidade que também atribuiu ao príncipe Míchkin.

[2] Em carta de 13 de janeiro de 1868 a Sofia Aleksándrovna Ivánova, Dostoiévski explicou que a ideia central do romance era representar um "homem positivamente belo". Reconhecendo a dificuldade da tarefa, apontou Cristo como a expressão suprema desse ideal e mencionou também Dom Quixote entre suas referências literárias. Paulo Bezerra examina essa relação no prefácio de sua tradução de O Idiota.

[3] A formulação tornou-se uma das frases mais conhecidas associadas a Dostoiévski, mas seu lugar no romance é mais complexo do que sua circulação isolada costuma sugerir. A ideia aparece indiretamente numa pergunta dirigida a Míchkin por Hippolit: "Príncipe, é verdade que o senhor disse uma vez que a 'beleza' salvará o mundo?". Por isso, convém lê-la dentro das tensões do próprio romance, e não simplesmente como um aforismo independente.