O que é poder

Reação literária à obra de Gérard Lebrun
Por: Pr. Reginaldo Cresencio
26/06/2026
Vivemos em uma época obcecada pelo poder. Basta acompanhar o noticiário por alguns minutos para perceber que praticamente todos os grandes debates contemporâneos, de alguma forma, giram em torno dele. Disputas políticas, conflitos internacionais, guerras culturais, relações econômicas, movimentos sociais, influência das grandes empresas de tecnologia e até as dinâmicas familiares revelam que o poder está em toda parte. Curiosamente, embora convivamos diariamente com ele, raramente paramos para perguntar o que realmente significa exercer poder.
Foi justamente essa inquietação que me levou à leitura de O que é Poder, de Gérard Lebrun.
Confesso que iniciei a leitura esperando encontrar um tratado técnico sobre filosofia política. Encontrei algo melhor. Lebrun não oferece definições simplistas nem pretende encerrar definitivamente a discussão. Seu objetivo é conduzir o leitor por uma jornada intelectual que atravessa mais de dois mil anos da história do pensamento ocidental, mostrando que o conceito de poder é muito mais complexo do que imaginamos.
Antes mesmo de apresentar respostas, o autor nos obriga a abandonar algumas certezas. Costumamos imaginar que poder é sinônimo de força, autoridade ou dominação. Entretanto, ao longo da obra, percebemos que ele pode assumir formas muito mais discretas e, justamente por isso, muito mais eficazes. O poder manifesta-se nas instituições, nas leis, na economia, na linguagem, na educação, na cultura e até na maneira como determinadas ideias passam a ser consideradas "naturais" dentro de uma sociedade.
O livro possui uma estrutura bastante didática. Em poucas páginas, Lebrun apresenta ao leitor os principais momentos da reflexão filosófica sobre o poder. Somos apresentados às contribuições de Platão e Aristóteles, passamos pela ruptura promovida por Maquiavel, acompanhamos as reflexões de Hobbes, Rousseau, Marx e Max Weber, até chegarmos às transformações do pensamento político contemporâneo. O mérito do autor está justamente em conseguir tornar acessíveis discussões que, muitas vezes, permanecem restritas ao ambiente universitário.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi a maneira como Lebrun demonstra que o poder dificilmente se sustenta apenas pela força. Governos, instituições e líderes permanecem de pé enquanto conseguem preservar certa legitimidade diante daqueles que lhes conferem autoridade. A coerção pode até impor obediência por algum tempo, mas dificilmente produz estabilidade duradoura. Essa percepção torna o livro extremamente atual, especialmente em um período marcado por crises de confiança nas instituições e por constantes disputas em torno da legitimidade da autoridade.
Ao longo da leitura, também me impressionou a capacidade do autor de mostrar que o poder nunca existe isoladamente. Ele nasce das relações humanas. Sempre que pessoas convivem, surgem formas de influência, liderança, resistência, negociação ou autoridade. Nesse sentido, compreender o poder é compreender algo profundamente ligado à própria experiência humana.
Naturalmente, enquanto lia essas páginas, minha mente frequentemente dialogava com a cosmovisão bíblica. A Escritura também fala muito sobre autoridade, governo e poder, mas o faz a partir de fundamentos completamente diferentes. Na filosofia moderna, o poder costuma ser analisado como um fenômeno social ou político. A Bíblia, porém, começa afirmando que toda autoridade verdadeira pertence, em última instância, ao próprio Deus.
Essa diferença torna-se ainda mais impressionante quando contemplamos a pessoa de Cristo. O Filho de Deus possuía toda autoridade nos céus e na terra. Ainda assim, revelou Seu poder servindo. Lavou os pés dos discípulos. Recebeu crianças. Acolheu pecadores. Curou enfermos. E venceu precisamente no momento em que parecia derrotado. A cruz permanece sendo o maior paradoxo da história: o lugar onde a aparente fraqueza revelou o verdadeiro poder de Deus.
Talvez seja justamente aí que a leitura de Lebrun se torne particularmente enriquecedora para o cristão. Mesmo partindo de pressupostos distintos dos nossos, o autor nos obriga a pensar com mais cuidado sobre aquilo que tantas vezes tomamos como evidente. Bons livros fazem exatamente isso. Nem sempre reforçam nossas convicções; frequentemente as refinam.
Como filósofo, encontrei nesta obra um excelente exercício intelectual. Como pastor, encontrei um lembrete importante. Toda discussão sobre poder acaba, cedo ou tarde, tornando-se uma discussão sobre o coração humano. O desejo de controlar, dominar, influenciar ou ser reconhecido acompanha a humanidade desde o Éden. Não por acaso, a primeira tentação oferecida pela serpente foi justamente a promessa de autonomia absoluta: "vocês serão como Deus".
Essa constatação torna a leitura ainda mais atual. Em uma sociedade que frequentemente celebra o poder como fim em si mesmo, o Evangelho continua anunciando um Rei cujo trono passou pela cruz e cujo Reino é sustentado pela verdade, pela justiça e pelo amor.
Não concordei com todas as conclusões de Lebrun; nem era essa minha expectativa. Sua análise parte de pressupostos filosóficos seculares e procura compreender o fenômeno do poder a partir da história das ideias. Ainda assim, considero essa leitura extremamente valiosa. Livros como este ampliam nosso repertório intelectual e nos ajudam a dialogar com o pensamento contemporâneo de maneira mais consciente e bem fundamentada.
Opinião Sincera
O que é Poder demonstra que nem sempre são os livros mais volumosos que produzem as reflexões mais profundas. Em pouco mais de uma centena de páginas, Gérard Lebrun consegue apresentar um panorama consistente sobre um dos conceitos mais importantes da filosofia política.
Recomendo esta obra especialmente para estudantes de filosofia, teologia, direito, sociologia e ciências humanas. Também acredito que pastores e líderes cristãos podem se beneficiar da leitura, não para encontrar uma teologia do poder, mas para compreender melhor as categorias intelectuais que influenciam grande parte do pensamento contemporâneo.
Terminei esta leitura convencido de que a pergunta mais importante não é simplesmente quem possui o poder, mas a serviço de quem esse poder é exercido. A resposta bíblica continua sendo profundamente contracultural: a verdadeira autoridade jamais se separa da verdade, da justiça e do amor. E sua expressão mais perfeita continua sendo encontrada na pessoa de Jesus Cristo.
Nota: 9,0
Obra consultada
LEBRUN, Gérard. O que é poder. São Paulo: Brasiliense, 1981.
