Trilogia Cósmica

                                                                               C. S. Lewis

Por Pr. Reginaldo Cresencio

10/05/2023

A Trilogia Cósmica é uma série de livros de ficção científica escrita pelo autor C. S. Lewis. A história segue o protagonista Dr. Elwin Ransom em três aventuras interplanetárias diferentes.

A amizade entre C. S. Lewis e J.R.R. Tolkien teve um papel significativo na inspiração de Lewis para escrever a Trilogia Cósmica. Lewis e Tolkien eram colegas e membros proeminentes de um grupo literário conhecido como The Inklings, que se reunia regularmente para discutir e compartilhar suas obras em progresso.

Tolkien, como autor de "O Senhor dos Anéis" e "O Hobbit", teve uma influência importante sobre Lewis como escritor. Os dois compartilhavam um amor pela literatura e pela fantasia, e mantinham conversas profundas sobre seus trabalhos e sobre questões filosóficas e religiosas.

Foi em uma dessas conversas que ambos se desafiaram a escrever uma história de ficção científica que explorasse questões teológicas e morais. Para nosso deleite, Lewis completou o desafio e hoje temos essa Trilogia Cósmica; Tolkien, por sua vez, não levou adiante esse desafio, porém encorajou Lewis a perseguir essa ideia e a dar vida às suas reflexões em forma de ficção.

Embora Lewis e Tolkien tivessem abordagens literárias distintas, com Tolkien criando um mundo de fantasia épica e Lewis se aventurando na ficção científica, sua amizade e troca de ideias influenciaram um ao outro como escritores. A paixão de Tolkien pela criação de mitos e histórias imaginativas, combinada com a abordagem apologética e teológica de Lewis, contribuiu para o desenvolvimento da visão única de Lewis na Trilogia Cósmica.

Além do Planeta Silencioso

No primeiro volume da Trilogia Cósmica, C. S. Lewis introduz o leitor a um universo vasto e espiritualmente ordenado, rompendo com a visão moderna de um cosmos vazio, indiferente e mecanicista. Além do Planeta Silencioso apresenta o início da jornada de Elwin Ransom, que, contra sua vontade, é lançado em uma aventura que o levará a confrontar não apenas o desconhecido, mas também suas próprias pressuposições sobre o bem, o mal e a soberania divina.

Levado ao planeta Malacandra, Ransom descobre um mundo habitado por criaturas racionais que vivem em harmonia sob o governo do Oyarsa, um ser espiritual que exerce autoridade delegada pelo Criador. Em contraste com essa ordem, surgem os personagens Weston e Devine, representantes de uma mentalidade humana marcada pelo orgulho, pelo imperialismo científico e pela exploração sem limites. Lewis utiliza esse contraste para criticar, de forma sutil e contundente, a arrogância do homem moderno que se coloca como medida de todas as coisas.

Ao longo da narrativa, Lewis desconstrói a ideia de que o progresso humano é intrinsecamente virtuoso. O "planeta silencioso" — a Terra — aparece como um mundo isolado, marcado pela rebelião, pelo pecado e pela surdez espiritual. Malacandra, por sua vez, revela que a verdadeira civilização não é definida pelo avanço tecnológico, mas pela submissão à ordem moral estabelecida por Deus.

Este primeiro volume estabelece as bases teológicas e filosóficas da trilogia. Além do Planeta Silencioso convida o leitor a enxergar o cosmos não como um acaso sem sentido, mas como uma criação viva, governada por Deus, onde cada criatura ocupa seu lugar em obediência e propósito. É uma obra que desperta assombro, questiona certezas modernas e prepara o terreno para reflexões ainda mais profundas nos livros seguintes.

Perelandra

No segundo volume da Trilogia Cósmica, C. S. Lewis conduz o leitor a Perelandra, um mundo de beleza exuberante, harmonia perfeita e inocência ainda não corrompida. Aqui, a narrativa assume contornos profundamente simbólicos e teológicos, funcionando como uma releitura criativa do drama do Éden — não como mera repetição, mas como um experimento moral que amplia a reflexão sobre obediência, liberdade e queda.

Enviado pelo Oyarsa, Ransom encontra Tinidril, a "Eva" de Perelandra, uma criatura ainda não marcada pelo pecado, vivendo em plena comunhão com a vontade divina. O conflito surge quando o mal reaparece sob uma forma sedutora e racional, buscando, mais uma vez, questionar a bondade de Deus e relativizar Seus mandamentos. Lewis retrata com maestria o modo como o mal não se impõe pela força, mas pela persuasão paciente, pelo argumento sofisticado e pela promessa ilusória de autonomia.

Em Perelandra, a batalha espiritual é travada sobretudo no campo da palavra, da consciência e da obediência. Ransom percebe que sua missão não é apenas observar, mas intervir, assumindo o custo pessoal de defender a verdade e a santidade diante da tentação. Lewis enfatiza que a obediência a Deus não empobrece a vida, mas a preserva; não limita a liberdade, mas a fundamenta.

Este volume se destaca pela profundidade espiritual e pela beleza poética de sua narrativa. Perelandra não é apenas uma história sobre um mundo distante, mas um espelho da própria condição humana. Lewis nos convida a refletir sobre nossas escolhas diárias, sobre a sutileza do pecado e sobre a graça que chama o ser humano a confiar plenamente na palavra de Deus.

Aquela Força Medonha

No terceiro e último volume da Trilogia Cósmica, C. S. Lewis desloca o conflito para a Terra e aprofunda sua reflexão sobre o mal de forma ainda mais sombria e realista. Aquela Força Medonha apresenta um mundo em que a ameaça não se manifesta apenas de maneira sobrenatural ou distante, mas infiltra-se nas estruturas culturais, científicas e políticas da sociedade humana.

Ransom retorna para enfrentar a ascensão de uma força organizada e aparentemente racional, mas espiritualmente corrompida, que busca remodelar a humanidade à margem de Deus. Lewis expõe, com notável lucidez, o perigo de um progresso desvinculado de fundamentos morais e espirituais, mostrando como a rejeição da transcendência conduz à desumanização, à manipulação da verdade e à perda do senso de limite.

Neste volume, a batalha não é apenas externa, mas profundamente interior. Os personagens são confrontados com escolhas morais decisivas, onde fé, obediência e humildade se opõem ao orgulho intelectual e ao desejo de controle absoluto. Lewis revela que o mal mais perigoso nem sempre se apresenta de forma grotesca, mas frequentemente se disfarça de racionalidade, eficiência e bem comum.

Aquela Força Medonha encerra a trilogia com uma advertência poderosa: quando o homem tenta reordenar o mundo sem Deus, acaba por destruir a si mesmo. É uma obra densa, provocativa e profundamente atual, que convida o leitor a discernir os sinais do mal em seu próprio tempo e a reafirmar a esperança na soberania redentora de Deus sobre toda a criação.

Conclusão

Em toda a Trilogia Cósmica, C. S. Lewis utiliza elementos de ficção científica para explorar temas teológicos, filosóficos e morais. É uma obra que amadurece com o leitor. Trata-se de uma leitura que não se esgota na primeira experiência, mas que convida à releitura atenta e reflexiva, pois suas camadas teológicas, filosóficas e morais se revelam progressivamente. C. S. Lewis escreve com imaginação vigorosa e, ao mesmo tempo, com profundo compromisso com a verdade, conduzindo o leitor a pensar o universo, o mal, a redenção e a soberania divina a partir de uma perspectiva cristã ricamente simbolizada.

Classifico esta obra com nota 9,5, recomendando fortemente que seja relida após algum tempo. Seu conteúdo deve ser "minerado" com cuidado e paciência, pois sempre oferece novas preciosidades àqueles que se dispõem a lê-la com atenção, sensibilidade e mente aberta. É uma ficção que forma, confronta e edifica — rara combinação em qualquer época.

Bibliografia

LEWIS, C. S. Trilogia Cósmica. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2022.